Paulo Henrique Rodrigues Pinheiro

Parêmias nem tão pequenas, nem tão profundas, sobre a sociedade capitalista

Policiais militares da Bahia, armados com fuzis, em uma vila popular, com o camburão aberto.

Publicado originalmente no Em defesa do comunismo.

O Partido dos Trabalhadores, surgido nos escombros da luta revolucionária contra a ditadura militar, fortalecido ainda mais com a derrota mundial dos socialistas, pela destruição do bloco soviético, vem aos poucos deixando à mostra suas mãos sujas de sangue, sua virada e participação no genocídio negro e seu tosco anticomunismo, seja internamente, seja internacionalmente.

Peru

Uma das primeiras medidas do primeiro governo Lula (9 de junho de 2003), foi autorizar uma ação contra “terroristas” no Peru que, na verdade, eram militantes comunistas em armas, e foram cassados, graças à operação da Força Aérea Brasileira, com aeronave especialmente preparada para intercepção de comunicações e localização em terra dos emissores, e por consequência a localização da base de operações do grupo, que tinha em seu poder oficiais do estado peruano e funcionários de uma empresa argentina que construía um gasoduto na região de Ayacucho. Operação essa, que até antes do quinto mandato petista, terceiro de Lula, estava presente no site da Aeronáutica, mas agora “foi sumida” do portal. Aqui, algumas notícias ainda presentes, em outros portais:

http://www.militarypower.com.br/frame4-conf25.htm

http://www.militarypower.com.br/frame4-conf25.htm

https://istoe.com.br/13727_MISSAO+SECRETA+NO+PERU/

https://istoe.com.br/13727_MISSAO+SECRETA+NO+PERU/

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2109200326.htm

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2109200326.htm

Além do fato dessa específica ação militar brasileira, devemos considerar o íntimo relacionamento entre as forças repressivas latino-americanas, alimentadas também por Lula e o PT. Haiti

Sem dúvida, uma das mais vergonhosas, violentas e inconfessáveis ações do estado brasileiro, e sob comando petista, fora de nosso solo. Além da grave intervenção colonial contra o povo haitiano, temos uma leva de soldados com graves problemas psicológicos abandonados após voltarem ao Brasil.

Violência extrema, suspeitas muito concretas de massacre contra civis, especialmente mulheres e crianças, estupros e execuções. Além de um laboratório para experimentos de repressão e eliminação de inimigos em terreno urbano. E um saldo terrível, figuras execráveis alçadas à política nacional como o General Heleno e o Capitão, agora governador de SP, Tarcísio de Freitas (Viva Lamarca, capitão do exército brasileiro, que em missão na Faixa de Gaza, volta profundamente abalado e com a semente do socialismo em seu ser).

Tenhamos em conta que a atuação das Polícias Militares é determinada diretamente pelo Exército Brasileiro, através do COTER (Comando de Operações Terrestres):

http://www.coter.eb.mil.br/index.php/atribuicoes-igpm

Em homenagem ao ministro Haddad, uma ligação ao site da Amazon, de um livro particularmente esclarecedor sobre ações e consequências da missão no Haiti para os desamparados soldados brasileiros:

https://www.amazon.com.br/Um-Soldado-Brasileiro-no-Haiti/dp/8525043044

Operações Internas

Nas jornadas de junho de 2013, com a pauta do transporte coletivo, a intensa repressão aos manifestantes ganhou fôlego com a desculpa do policial com o rosto ensanguentado. Haddad toma o lado das empresas, garantindo um aumento no valor das passagens, e negando-se a negociar, com a declaração “Não vou dialogar em uma situação de violência, falei várias vezes. A renúncia à violência é pressuposto ao diálogo”. Desqualificando politicamente o movimento, e tomando parte em favor do cartel dos transportes, Alckmin pode fazer sua parte, levando a violência às ruas com máxima potência.

Outro grave legado do PT, foi em relação à usina de Belo Monte, tendo como figuras principais dessa tragédia há muito planejada, mas defendida e concluída pelos petistas, temos Lula e Dilma. Indígenas e ribeirinhos, destruídos em seu modo de vida, com processos acusando o governo de etnocídio. Trabalhadores das usinas em terríveis condições, inclusive com execuções de lideranças nas lutas e greves por melhores condições. Destruição ambiental, ineficiência energética, repressão a povos, comunidades e trabalhadores.

Outro caso relegado ao esquecimento, é a desocupação e demolição imediata de uma casa (em uma escola abandonada) de apoio a mulheres vítimas de violência, ocupada e coordenada pelo movimento Olga Benário (PCR). A atuação junto às populações mais afetadas pelas violências tão presentes contra mulheres, e o descaso da prefeitura em promover ações de apoio e acolhida, leva a um tenso período de perseguição a essas mulheres até o auge, com o despejo e imediata demolição. Prefeitura do PT, cujas direções partidárias em todas as instâncias calaram-se, ou deram aquela comum “passada de pano” no caso.

https://averdade.org.br/2022/04/casa-helenira-preta-e-removida-ilegalmente-e-demolida-pela-prefeitura-de-maua/

https://averdade.org.br/2022/04/casa-helenira-preta-e-removida-ilegalmente-e-demolida-pela-prefeitura-de-maua/

Política de extermínio e encarceramento

Os recentes governos petistas estaduais, em todos os seus sucessivos mandatos, tem deixado clara a posição de classe do partido: inimigo de morte dos trabalhadores, especialmente jovens e negros.

Não é coincidência que a guerra antidrogas tenha sido radicalizada por Lula, em agosto de 2006. Explode o aprisionamento da juventude brasileira, especialmente por porte de drogas, facilmente transformado em crime de tráfico pelo aparato legal. O uso indiscriminado de “kits flagrante” para forjar crimes se torna cada vez mais comum, por parte das autoridades. Recompensas por produtividade (efetuar mais prisões), acentuam essa grave situação.

Na Bahia, o genocídio é aberto e escala suas atrocidades, sem críticas, e até com apoio. O discurso do governo (não de simples quadros da “frente ampla”, mas dos aliados mais íntimos, fantoches, como Flávio Dino e Ricardo Cappelli) se rebaixa ao discurso punitivista e assassino da burguesia brasileira. O neoliberalismo econômico anda de mãos dadas com o fascismo. A esquerda busca tornar tudo mais aceitável, em maior ou menor grau.

Como cereja intragável desse bolo de atrocidades, o início da exploração da mão de obra encarcerada em moldes não educativos, de não serviço social, ganha corpo com o novo governo Lula, em alianças com os representantes mais retrógrados da burguesia. Acelera o processo de administração privada de presídios, e amplia a aceleração de presídios privados, financiados pelo BNDES. Com a exploração da mão de obra encarcerada, o patronato enxerga o trabalhador ideal: confinado, sem mobilidade, sem possibilidade de crítica, de ação sindical, sem direitos. E tudo isso iniciando por uma empresa consagrada em irregularidades como fornecimento de alimentação estragada.

Enfim, se lutamos para não permitir a reeleição de Bolsonaro, não temos razão alguma para nos mantermos no mesmo campo que a esquerda contemporânea, por mais avançados que grupos de esquerda radical possam ser, se comparados com a esquerda majoritária.

Apoiar os governos petistas, especialmente o federal, significa apoiar a morte e encarceramento dos nossos, de nós mesmos. Para além do PT, não podemos mais nos reduzir a uma força de esquerda. Estamos em uma situação, percebida pela população em geral, em que, por décadas, nem esquerda, nem centro, nem direita deram certo. E não precisamos perder tempo e esforços em explicações desnecessárias sobre que tipo de esquerda somos. Não somos esquerda, apenas temos alianças pontuais com esses grupos, que participam e administram o estado burguês. Para muito além de esquerda, somos socialistas, somos revolucionários, somos comunistas.

Paulo Henrique Rodrigues Pinheiro – https://bolha.us/@paulohrpinheiro

Lula e FHC em frente a um balcão cheio de copinhos descartáveis, adoçando o que parece ser seus cafés.

Publicado originalmente em Lula e o Socialismo

“Outros companheiros, em outras épocas, tentaram criar partidos revolucionários, tentaram criar partidos de massa, e a verdade é que quase todas as experiências, ou por causa da ditadura ou por causa do fracasso dos próprios militantes, não deram os resultados necessários.” Lula, no “Seminário Internacional 70 Anos de Experiência de Construção do Socialismo”, em 1987. https://jacobin.com.br/2023/10/lula-e-a-construcao-do-socialismo/

Esse discurso de Lula é revelador e nos permite entender os descaminhos (de um ponto de vista revolucionário) contemporâneos dele e do PT na administração de certos aparatos estatais brasileiros, especialmente a presidência da república. Só esse trecho revela um pensamento muito comum na esquerda: a de que a história das lutas populares começa na ditadura militar, e “que nunca na história do Brasil”, houve alguma coisa sólida nas lutas dos trabalhadores brasileiros. Nesse discurso, de um ponto de vista histórico, vemos uma força política de base proletária com uma ideologia anti-comunista, portanto anti-proletária, ganhando força.

Uma observação: os subtítulos no decorrer do texto são os usados pela transcrição da Jacobin, cujo link está acima. Tentei usar, para cada parte, uma citação que trouxesse o espírito da argumentação de Luiz Inácio.

Introdução

“Outros companheiros, em outras épocas, tentaram criar partidos revolucionários, tentaram criar partidos de massa, e a verdade é que quase todas as experiências, ou por causa da ditadura ou por causa do fracasso dos próprios militantes, não deram os resultados necessários.”

Note-se que “introdução” é um título que não existe na transcrição do discurso, coloquei aqui apenas para marcar o início do discurso. Dois pontos são bem apresentados por Lula: conhecimento teórico, e a criação do PT.

Há um quê de humildade, pois ele se coloca como alguém não estudado, porém profundamente preocupado com essa situação, ao mesmo tempo em que reivindica um aprendizado intuitivo da mais-valia (“sem ler o Capital”). Também argumenta que aprendeu a fazer política “sem ler livros”.

Algo que ele deixa passar, e que fica nítido, está em que a convivência coletiva, especialmente com os grandes intelectuais e quadros revolucionários que aderem ao PT, além obviamente, dos intelectuais e lutadores católicos, fizeram sim uma grande diferença na formação dele. Mais que ler livros, não só a luta prática, mas a luta prática coletiva e organizada, eleva as condições culturais e a práxis de qualquer pessoa.

Agora, sobre a criação do PT. Argumenta o agora Presidente que os comunistas (MR-8, PCdoB e PCB) não declaravam a ele sua condição, e sempre argumentaram que não era o momento de criar um partido. Todos estavam sob o guarda-chuva do MDB. Sentindo-se enganado, partiu para a fundação do Partido dos Trabalhadores.

Mais uma vez, é no que não está dito que encontramos o mais importante: no final dos anos 1970, as operações de caça e prisão dos comunistas estavam a pleno vapor, especialmente em sindicatos. As últimas grandes células comunistas estavam sendo destruídas uma a uma, e a clandestinidade era a única condição possível.

Ouso dizer que a desarticulação das direções dos partidos revolucionários, bem como de suas organizações de base tem um papel especial na construção do PT. Estando essas organizações inviabilizadas, o imperialismo permitiu uma abertura segura, inclusive com a criação de mais partidos, mesmo de esquerda, especialmente os não revolucionários.

A desarticulação dos trabalhadores brasileiros está em sintonia com o processo que em breve tempo culminaria no fim da experiência socialista soviética.

O que há de revolucionário no PT?

“Quando eu disse que a questão revolucionária é subjetiva, é porque eu acho o PT um dos partidos mais revolucionários que já surgiu na história desse país. Eu acho o PT revolucionário, não porque ele diga nos seus discursos ou nos seus escritos que é um partido revolucionário. É revolucionário porque nasceu com a ideia definida de que era preciso organizar a classe trabalhadora dando a ela consciência política para que ela se descobrisse enquanto força trabalhadora da sociedade.”

Creio que aqui temos a chave hermenêutica do discurso de Lula e do que seja o PT. Uma forma de espontaneísmo, de esperança num despertar socialista vindouro que não precisa ser trabalhado, e o mais grave, que não se relaciona com condições objetivas. E nem com toda a história dos trabalhadores brasileiros, construída em uma dura caminhada, não só no século XX, mas por toda a história desde a ocupação do território agora chamado Brasil.

Começa com desculpas em torno de uma possível falta de conhecimento teórico pessoal, que, como abordado acima, não é verdadeiro pois quando se está em um coletivo partidário, é impossível não crescer teórica e intelectualmente. Há um reforço aqui de que a prática está acima da teoria, o que no caso do PT, é uma mentira, pois desde a sua fundação há uma coerência ideológica, profundamente negacionista e anticomunista, que obriga os petistas a manter um linguajar que falsamente evoque o socialismo e a revolução, por conta da força que essas ideias, apesar de todo desmonte das organizações comunistas, ainda persistia na mente e corações dos trabalhadores brasileiros. Uma memória muito forte e presente ainda, apesar da ditadura, e que precisa ser destruída para que o PT atinja e mantenha a condição de força majoritária entre os trabalhadores.

Também encontramos uma espécie de “basismo”: a ideia de que basta ter organização dentro dos locais de trabalho para se garantir contra golpes de estado ou outras formas de repressão. Não adianta ter bases sólidas, em empresas e demais núcleos de base, se não há direção política disposta a facilitar e coordenar nacionalmente meios de ofensiva ou mesmo de resistência. Isso comprovamos lembrando do golpe de 1964, em que havia penetração democrática e socialista até mesmo nas forças armadas. Também prova esse ponto a incapacidade de o PT, no governo federal, reagir ao golpe contra a presidenta Dilma.

Sobre trabalhadores, rurais ou urbanos, alçados às tarefas de direção, me parece mais uma das infundadas frases de efeito, muito desrespeitosas com a história de lutas do povo brasileiro. Desde a fundação do Partido Comunista, e por toda a história de seus rachas, em suas diversas instâncias de direção, observa-se uma quantidade abundante de dirigentes e, mais importante e não citado por Lula, uma especial qualidade de dirigentes proletários e camponeses forjados nas lutas.

Construir a unidade da classe trabalhadora

“Há mais de cem anos o velho Marx dizia: “trabalhadores de todo mundo, uni-vos”. E a gente não consegue unir os trabalhadores do ABC, a gente não consegue unir os trabalhadores de São Paulo, do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, quanto mais os trabalhadores do mundo.”

Nessa parte do discurso é contada uma história sobre como fazer na prática a união dos trabalhadores, tal como prescrita na frase “Trabalhadores de todo mundo, uni-vos!”. Cansado de participar dos debates sobre a dívida externa, apenas por parte dos trabalhadores de países devedores, Lula propõe debates com trabalhadores de países credores, para saber o que eles acham de viver bem por conta dos trabalhadores de países endividados…

Usando uma pauta interessante, desvia para questões morais, e mais uma vez, desconsidera o papel do proletariado organizado e rebaixa os objetivos políticos dos trabalhadores. Reclama do “muro de lamentações” local, e embora estenda para uma escala mundial, não propõe qualquer estratégia rumo ao socialismo.

A classe trabalhadora e a constituinte

Há uma breve avaliação, positiva, sobre a Constituinte, e o posicionamento sobre a atuação do PT (e do bloco de esquerda, acrescento eu), que com menos de 10% dos parlamentares, em uma correlação de forças desfavorável, mas calcados em forte pressão popular, fizeram avançar muitos temas importantes aos trabalhadores brasileiros.

Esta é uma bela memória que deveria ser articulada no terceiro governo Lula.

Para que serve uma vanguarda?

“A grande decepção que eu tive na minha vida depois de dezoito anos de sindicato, depois de fazer todos os tipos de greve que um dirigente sindical pode fazer, foi ir na porta da fábrica numa campanha e ver que o eleitor não sabia por que votava no candidato, não sabia distinguir quem era Afif Domingos ou quem era não sei mais quem, como se fosse tudo a mesma coisa. E quando ele pensa que é tudo a mesma coisa, é porque nós não estamos falando uma linguagem capaz de ser compreendida pelo conjunto da classe trabalhadora.”

Atualmente podemos afirmar que a esmagadora maioria dos parlamentares de esquerda tem poucas diferenças em relação à direita liberal. Lembrando a tradição latinoamericana, podemos pensar na esquerda brasileira como “liberais”, e o que chamamos de liberais ou neoliberais, de “conservadores”. E como manda essa tradição latinoamericana, nessa amorfa politicagem entre liberais e conservadores, a superação só pode se dar por forças revolucionárias. Eventualmente forças protofascistas se impõem, mas o marasmo da luta política se mantém assim.

E eu me pergunto, com sinceridade, se quem trata todos os políticos como iguais, está errado. Em geral, trata-se isso como despolitização. Mas será mesmo? Eu vejo isso como a falta de uma política revolucionária que faça avançar as lutas para além do suportado pela pelegada.

Como exemplo de uma liderança de vanguarda, Lula conta uma história de Vicentinho (“um dos mais extraordinários oradores de massa que esse país produziu”). Em uma greve, Vicentinho foi incumbido de defender perante os trabalhadores que uma greve na Autolatina fosse parada. Em frente aos mais de dez mil trabalhadores, percebe que não querem isso, que querem ir em frente. Aí Lula diz que frente à verdadeira vanguarda que são as massas, a liderança de vanguarda se resigna.

Muitos problemas aqui nessa história, como contada. Se lê que vanguarda é quem está à frente e vanguardista é que está muito à frente, sem conexão, entre outras reflexões problemáticas. E estabelece-se a comum e falsa dicotomia entre base e vanguarda.

Vanguarda, termo militar, é aquele grupo de combatentes que vai à luta primeiro para aprender como luta o inimigo, faz as primeiras sabotagens e execuções, além de mapear o terreno e as forças inimigas. Como um primeiro grupo, certamente terá grandes baixas. Mas os que sobrevivem, devem voltar à massa de soldados, ensinar tudo que aprenderam. Às massas cabe, de posse desse conhecimento, junto com a vanguarda, avançar e esmagar o inimigo.

Politicamente ocorre assim também. Todo trabalhador que se conscientiza da revolução socialista, se organiza e age, é vanguarda. E como vanguarda, estará inicialmente em pequenos grupos. Mas em dado momento, sua missão se conclui, e cabe às massas trabalhadoras, com sua vanguarda, esmagar, social e politicamente, a burguesia.

Logo após, uma visão sobre o futuro: Lula conta uma história sobre um grupo da FIEP que “procura os trabalhadores” para conversar sobre uma solução para o Brasil. Procuraram o PT, especificamente, por terem, nesse passado, uma visão que contempla o que é o PT atualmente. Essa aliança com a burguesia, chamada atualmente de “frente ampla”, há muito estava dada.

Uma classe trabalhadora socialista

“Nós ainda não conseguimos fazer a classe trabalhadora entender a necessidade de se organizar politicamente, a necessidade de militar politicamente. Ela tem a cabeça formada para ser totalmente apolítica. O conceito de que a política não presta ainda predomina no conjunto da classe trabalhadora, e é da nossa responsabilidade desfazer isso.”

E, por fim, temos ratificado e continuado o combate à organização revolucionária dos trabalhadores brasileiros. Uma sutil defesa de transformar todos os trabalhadores em socialistas, aliado ao tema da vanguarda ser o todo, a defesa do “político não é tudo igual” (como envelheceu mal essa afirmação levando em conta as ações do PT em seus governos), tudo isso compõe um conjunto que definia, então, a base anticomunista, e portanto, pró-burguesia, do PT, que contemporaneamente desnuda-se por total.

Seguem-se vários comentários sobre acertos, erros, não ver o socialismo em vida. Mas esse socialismo não tem um projeto, não tem uma vanguarda revolucionária organizada, não é exemplo e inspiração para as massas proletárias. Esse socialismo depende apenas da boa vontade de trabalhadores “politizados”, nos limites burgueses.

Paulo Henrique Rodrigues Pinheiro – https://bolha.us/@paulohrpinheiro

Cerimônia de fundação da República Popular da China, praça Tiananmen, 1949

Publicado originalmente em Em Defesa do Comunismo/sobre-a-china/

Se há um tema quente entre comunistas, é a China. Não precisamos, não podemos, e não devemos estagnar num estado em que apenas colocamos pomposas etiquetas para encobrir o não conhecimento pormenorizado das sociedades analisadas. Aqui vai um contexto inicial, para marcar o terreno em que estamos entrando:

País                      População   Percentual
Mundial               7.900.000.000    100,00%
China                 1.426.391.281     18,06%
Coreia Popular           25.778.816      0,33%
Cuba                     11.326.616      0,14%
Laos                      7.275.560      0,09%
Vietnã                   97.338.579      1,23%
Países Socialistas    1.568.110.852     19,85%

Temos aproximadamente (os dados de cada país referem-se a censos em diferentes anos, mas o que importa aqui são as ordens de grandeza, e não números exatos), 20% da população mundial vivendo sua jornada socialista, representados em sua quase totalidade pela China, lembrando que os demais países citados também se apresentam com grandes contingentes populacionais.

O socialismo é uma experiência viva, com todas as suas dificuldades e problemas, ocorrendo em pleno século XXI. Não é algo que foi varrido do mapa mundial com a queda da experiência soviética, embora as consequências dessa derrota sejam inegáveis e vividas por todos nós, cada vez mais.

O que me incomoda nos debates sobre os caminhos chineses é, primeiro e mais grave, ignorar ou diminuir a ação dos trabalhadores chineses. Ou glorifica-se o governo chinês (em raros casos especificamente o PCCh), ou então cai-se na simplificação de aplicar alguma etiqueta, como “capitalista”, “imperialista”, “traidora”, “revisionista”, “degenerada”, e tantas outras à experiência nacional como um todo. Em muitos casos, com nem sempre discretos tons de sinofobia.

Esses povos que se mantém ainda sob a égide socialista, nos ensinam vários caminhos, e devem nos levar a uma pesquisa madura sobre sua história, especialmente a contemporânea.

À exceção da Coreia Popular (que além de suas próprias forças, conta com o apoio chinês), percebe-se a presença e estímulo da atividade capitalista, seja formal, seja informal nos outros países. Nesse sentido, penso que a China é o grande palco da burguesia formal, com suas articulações internacionais, inclusive com operações em outros países. Em outro extremo, Cuba é assolada por uma multiplicidade atividades econômicas, seja pelos pequenos empreendimentos individuais voltados ao turismo (em que gorjetas e valores ganhos em um dia são múltiplas vezes superiores ao salário mensal de um trabalhador), seja pelo contrabando e mercado paralelo, além das atividades de maior vulto, formalizadas em geral, via aporte estrangeiro. Já Laos e Vietnã contam com aberturas profundas ao dito “livre-mercado”.

Tudo isso por si só já é complicado. Então, para dar mais um passo, vejamos algumas atuações internacionais. Na atual movimentação para uma nova guerra imperialista de alcance mundial e com reais chances de extermínio direto da humanidade, ou das condições necessárias para a nova sobrevivência, vemos uma intensa movimentação para reiterar a amizade com o povo russo, especialmente por parte de Cuba e China.

África e América Latina sendo tomados por capitais chineses, ainda que sem o caráter imperialista. Temos Cuba se declarando publicamente amiga do PSUV (https://pt.granma.cu/cuba/2023-08-10/o-pcc-e-o-psuv-estarao-sempre-no-mesmo-caminho-da-revolucao) ao mesmo tempo em que este já lutava abertamente para tomar o controle do PCV (https://diariodecuba.com/internacional/1692108912_49163.html).

Só trago esse caso particular para ilustrar que para além das políticas internas, as ações e relações exteriores dos governos e partidos revolucionários desses povos nem sempre serão aceitáveis. Devemos buscar um posicionamento sobre a China. Apenas reitero que isso não deve se resumir à escolha de qual etiqueta colocar no mapa da China.

Mesmo entre nós há uma prevalência de informações oriundas dos grupos privados de comunicação, cujo objetivo é desinformar. A pouca circulação de qualidade e minimamente confiável de informações sobre os países socialista ainda fica restrita às bolhas de internet. Nossa imprensa tem o dever histórico e internacionalista de divulgar o que ocorre nesses países, continuamente.

Nos casos de países que realizaram a conquista do poder político para o proletariado, o primeiro compromisso é com esses trabalhadores. A revolução socialista não significa que seja sempre possível varrer de imediato toda e qualquer relação capitalista. Pois ao simplesmente virar as costas para qualquer uma dessas experiências, o que se faz concretamente é virar as costas para o proletariado desse país.

Por isso insisto que devemos aprofundar nosso conhecimento sobre esses países. Não podemos viver de fotografias dessas sociedades, mas antes, estabelecer um acompanhamento vivo e contínuo de tudo que ocorre, o que só pode ser feito com trabalho profissional e dedicado, seja com o estabelecimento de sucursais de nossa imprensa em cada um desses países, seja pela participação ativa em algum órgão que reúna partidos comunistas para esse fim, o que poderia até nos qualificar como uma agência de notícias sobre o mundo do socialismo aqui no Brasil, por exemplo, além de nossa necessidade interna de permanente informação, para que não sejamos pegos de surpresa em possíveis grandes eventos.

Sobre China, Cuba e Coréia Popular, temos um intenso e bem feito trabalho de divulgação em português desses países, já seria um bom começo acompanhar e sistematizar esse material:

O mesmo vale para países em que temos organizações revolucionárias “mais chegadas”.

Mas voltando à China, precisamos não cair na função de etiquetadores, devemos estabelecer relações próximas com seu povo e seu cotidiano, assim como todos os outros países socialistas. Mais uma vez, não podemos voltar as costas ao grande palco da luta de classes do nosso século, com suas terríveis e fascinantes contradições.

Paulo Henrique Rodrigues Pinheiro – https://bolha.us/@paulohrpinheiro

Foto antiga da Escola Carlos Gomes

Digamos, para ilustração, que esses causos ocorreram verdadeiramente de verdade em um grande colégio estadual de São Paulo, digamos que no centro de Campinas, cujo nome é uma homenagem a um grande maestro campineiro...

Ela comanda a escola com mãos de ferro. Sempre vigiando a praça homônima. Sempre vigiando a entrada. Sempre vigiando a saída. Sempre vigiando cada sala de aula. Sempre vigiando o pátio. Sempre vigiando a cantina. Ela vigia cada professor. Sabe quanto cada aluno gasta na cantina.

Sim, aparentemente, ela também tem controle sobre os gastos individuais dos alunos. Mas falemos primeiro de uma obsessão muito particular e intrigante.

Dizem que pelos corredores da escola ecoam gritos estridentes de “E O UNIFORME????”... É o grande projeto de vida dessa engajada burocrata do sistema educacional. Em sua escola, ninguém deve estar sem o uniforme. Ninguém, ninguém, ninnnnnnnguéééééémmmmm!!!

Listas de desordeiros não uniformizados pipocam nas listas de mensageiria para que sejam punidos publicamente pela humilhação. Em cada comunicado, em cada reunião, em cada mensagem, a obsessão pelo uniforme se apresenta como uma maldição aos alunos.

Mas voltemos aos gastos na cantina.

Em um misto de inspeção e comunicado, em cada sala de aula, vem a mais divertida, cruel e destemperada frase:

Um uniforme custa trinta reais, vocês gastam muito mais que isso na cantina.

Não me lembro se escrevi aqui, mas se trata de um colégio público. O uniforme não faz parte do “kit escolar”. Tem que ser comprado. Justiça seja feita, em casos extremos, muito extremos, um e apenas um uniforme é doado.

Fiquei uma tarde inteira rindo com minha filha sobre essa frase, mas depois lembrei que a exigência “nesse quesito aí” fere uma lei estadual sobre o uso obrigatório de uniformes no estado de São Paulo:

https://www.al.sp.gov.br/repositorio/legislacao/lei/1983/lei-3913-14.11.1983.html

Uma funcionária pública da educação infringindo uma lei estadual? Pode isso Galvão?

E os poderes da dama de ferro só crescem. Agora a repressão tem seu braço não armado, mas armado. Nesse dia, foi apresentado o funcionário responsável por averiguar o cumprimento do decreto lei da nossa, às vezes penso que caricata, diretora.

Um homem, com um cassetete na cintura, com autorização para inspecionar os banheiros masculinos (!!!), proibido de ter amizade com os alunos (palavras dela) estará pela escola vigiando, e quando possível, punindo, já que o cassetete é para ser utilizado para separar brigas que porventura ocorram.

A dama de ferro tem seu aparato de vigilância e punição.

Paulo Henrique Rodrigues Pinheiro – https://bolha.us/@paulohrpinheiro

Mais uma melancólica sexta-feira começa.

Os sempre cheios e atrasados ônibus impedem o otimismo. Na estação, correria para pegar outro ônibus, que está saindo. Ninguém se olha, ninguém dá passagem, ninguém se importa. Há um choque entre quem sai e quem entra como no encontro de dois corpos de infantaria numa batalha campal.

Uma doce e tímida voz chama meu nome. À terrível pergunta “Lembra de mim?” segue-se uma eternidade para minha óbvia e sem ­graça resposta “Claro!”.

Padronizados seres entram em uma padronizada conversa. “O que você anda aprontando? Trabalhando como sempre. Eu também... Meu ônibus! Tchau. tchau.”

Após a despedida, é claro, lembro de quem se trata.

Fico alegre apesar dela já ter ido embora, afinal de contas, se reencontrei, é porque já vivi.

Causo real acontecido verdadeiramente de verdade em Curitiba, no terminal Campina do Siqueira, 7 da manhã, por volta de 2005.

Paulo Henrique Rodrigues Pinheiro – https://bolha.us/@paulohrpinheiro

Assistindo ao react de Jones Manoel (https://www.youtube.com/watch?v=ubVXDf4Zml0) a um trecho da conversa do Frei Beto com Reinaldo Azevedo e Walfrido Warde, uma conversa muito boa, ficou um detalhe em minha cabeça.

Parece-me que o abstrato “Cuba é uma ditadura” ficou reduzido a “não há pluripartidarismo”. E, não há o que negar, em Cuba, há um único partido oficial, estruturante e estruturado no Estado cubano, que é o Partido Comunista de Cuba.

Devemos sempre nos lembrar que o PC cubano é uma fusão de organizações ligadas pelo momento histórico e objetivo de libertar Cuba e superar a condição de puxadinho. Enfim, libertar-se e seguir rumo ao socialismo. Não há comparação possível com qualquer outro país. É uma experiência única.

Surpreendeu-me o argumento que Walfrido trouxe, da excepcionalidade legal de direitos nos estados democráticos, quando em guerra. Esse é um argumento pra anotar e estudar. Cuba liberta e socialista jamais esteve um dia sequer fora da ameaça, e dos atos concretos, de guerra e sabotagem, promovidos ou patrocinados pelos diversos aparelhos estatais e paraestatais dos EUA.

Mas o que me pegou mesmo foi a questão do pluripartidarismo.

Pra que servem os partidos políticos?

Em um primeiro momento, pra congregar pessoas com um objetivo minimamente convergente, em relação a políticas públicas, leis, economia...

Mas pensemos no Brasil. Esse troca-troca de partidos, que caracteriza nosso sistema eleitoral, é, para mim, sinal mais de conveniência conjuntural eleitoral, do que qualquer outra coisa. Projetos nacionais verdadeiros, em partidos políticos, só existem, primeiro, nos raros partidos ideológicos, com doutrina e pensamento bem definidos, e, segundo, quando há um grande embate nacional.

E repito, estritamente conjuntural, marcado e direcionado pelas eleições mais próximas.

Isso é a sociedade regida pelo capitalismo, pelo individualismo burguês, que vende objetivos particulares espúrios, fantasiados de grandes questões nacionais.

Participar de um partido, ser candidato com chances de ser eleito, só com muito dinheiro, patrocínio, benção dos coronéis, e articulação das redes dos cabos eleitorais, que, via suborno ou ameaças, garantem votos para o candidato da vez. Ou, nos casos de exceção, por um verdadeiro trabalho popular de longo, muito longo, prazo

Dado que o voto no Brasil não é verdadeiramente secreto (por inferência da quantidade de votos de cada urna, pode-se deduzir se certas pessoas votaram ou não em alguém), é fácil chantagear, obrigar e cobrar resultados de indivíduos e comunidades.

Voltando a Cuba. As eleições de base em Cuba são estritamente distritais. Isso significa que alguém para ser eleito deve fazer parte da comunidade em que mora. Mais que isso, para ser candidato, tem que ser aprovado pelos moradores dessa região, e então a campanha é muito restrita aos problemas concretos, e possibilita que qualquer um seja candidato com reais condições de eleição.

E daí? E daí que, se alguém não notou, não falei em filiação partidária. Não é necessária para nenhum tipo de pleito. Se alguém quiser organizar um forte movimento de oposição, terá que fazer isso distrito a distrito, discutindo os problemas concretos.

E aí que a coisa pega. Coincidentemente, essas zonas eleitorais, em geral, coincidem territorialmente com os CDRs (Comitês de Defesa da Revolução), que é o órgão popular responsável pela defesa militar da revolução. Estou falando de poder real, de democracia real.

Portanto não faz sentido algum cobrar Cuba por não ter um sistema pluripartidário. Essa proposta só faz sentido, se o que se deseja é destruir a democracia popular cubana, se o que se deseja é estabelecer eleições que só possam ser ganhas através do poder econômico.

Por fim, pequena observação: é possível minar a revolução cubana por dentro de seu sistema de poder e democracia popular? Acredito que sim, mas depende muito de condições extremas que, essas sim, determinariam o fim da experiência cubana de autonomia.

Paulo Henrique Rodrigues Pinheiro – https://bolha.us/@paulohrpinheiro

A Inteligência Artificial, assunto do momento... Todo mundo dá pitaco, lá vou eu.

Cada um de nós, evidentemente cada um de nós com condições socioeconômicas, somos agora como aquela pessoa poderosa, cercada de assessores que lhe servem. Basta querer algo e emitir a ordem, que algo será apresentado.

Assim acontece, por exemplo, com o ChatGTP.

Se antes tínhamos a ilusão de ter todos os artigos, textos e livros do mundo à nossa disposição (com o google), o que evidentemente é falso, agora temos a ilusão de termos um assistente inteligente e bem informado que pode suprir nossas deficiências (ou preguiça) e prontamente nos fornecer textos e respostas bem elaborados.

E aqui está o problema: fazer coisas sem pensar, resolver problemas sem inovar. É a cobra engolindo a si mesma. Isso é uma coisa que tenho comigo desde quando declararam que o Deep Blue venceu o Kasparov, que a máquina venceu o homem.

Foi necessária a ingestão de todo o conhecimento possível, codificada e organizada por humanos, toda uma operação coordenada por humanos, muitos humanos, para enfrentar um único humano.

Portanto a máquina não venceu o homem. Muitos humanos trabalhando em conjunto com muitos recursos computacionais venceram, com muita dificuldade, um único humano, dispondo de sua experiência e inteligência.

E nada de novo, apenas o conhecimento humano dado até o momento. Estamos em um momento histórico em que a produtividade atingiu um grande nível. Todo conhecimento humano, ao menos a pequena fração catalogada digitalmente, pode ser processado e acessado muito rapidamente.

Mais que isso, esse conhecimento pode ser inter-relacionado e pode-se descobrir relações que manualmente não sejam tão fáceis e óbvias.

Esse é o valor.

E isso leva a um progresso tremendo na produtividade do trabalho. E, tirando a panaceia e todo o deslumbre ou romantismo em torno disso, há a terrível consequência no mundo do trabalho: desemprego, seja pela diminuição de vagas, seja pela eliminação de certas funções.

Há muitos problemas a se resolver ainda.

Socialmente, há que se manter as pessoas empregadas, e aqui não há outra solução que não seja a redução imediata da jornada máxima para 30 horas semanais. Tecnicamente é preciso avançar muito, para que não se interaja com conjuntos limitados e muito desatualizados. Questões éticas e legais continuam sendo pra depois...

Paulo Henrique Rodrigues Pinheiro – https://bolha.us/@paulohrpinheiro

Tempos de consolidação da burguesia.

Tempos de imbatível fortaleza das oligarquias cafeeiras.

Tempos em que os artistas se libertam do academicismo e proclamam novos caminhos.

Tempos em que o proletariado vira sujeito consciente de sua história, e cria seu partido, o Partido Comunista.

Tempos em que o socialismo é uma realidade para grandes porções da humanidade.

E tempos em que a pequena ­burguesia urbana, vendo toda essa efervescência, obriga-se também a se posicionar perante tudo isso. De um profundo e honesto sentimento de justiça e moralidade, muitos se ocupam de conspirar e agitar. Era urgente fazer justiça e acabar com a pouca­ vergonha que caracterizava e caracteriza ainda hoje a política nacional. Era preciso encarar todas as fraquezas de nosso país, todo o sofrimento de nosso povo. Estes eram tempos em que as classes ­médias brasileiras educavam-se a duras penas, mas conquistavam um arcabouço cultural e uma disposição para a luta, quase impossível de se imaginar nos medíocres e vulgares tempos em que vivemos. Muitos optaram por tornar único o caminho dos corredores da máquina estatal.

Poucos enxergaram mais longe e se incorporaram às lutas operárias. Mas fizeram a diferença.

Paulo Henrique Rodrigues Pinheiro – https://bolha.us/@paulohrpinheiro

Estou lendo o aclamado “Como fazer amigos e influenciar pessoas”, de Dale Carnegie, e tenho achado bem raso. Pensei que fosse preconceito meu em relação a esse estilo de literatura. Cada capítulo traz um princípio rodeado de histórias que o confirmam, como depoimentos.

Até aí, tudo bem. Mas eis que chego no capítulo “O segredo de Sócrates”, e acho o seguinte, ao final, na p. 162, na edição da Sextante, 2019:

'Ele dizia às pessoas que estavam erradas? Não, Sócrates não fazia isso. Era astuto demais para cometer um erro como esse. Toda a sua técnica, hoje chamada de “método socrático”, se baseava em obter um “sim” como resposta. Ele fazia perguntas com as quais o oponente teria que concordar. Obtinha um “sim” após o outro, até alcançar um número suficiente de respostas positivas. Fazia perguntas incessantemente, até que, por fim, quase sem perceber, seus oponentes se pegavam chegando a uma conclusão que teriam rejeitado antes”.'

Não serei eu a expor o método socrático aqui, pois sequer temos as palavras de Sócrates escritas por ele mesmo. Temos uma interpretação do que seria esse método, em Platão e Xenofonte e outros, mas há ampla literatura especializada sobre esse método que não deixa dúvidas de como Sócrates agia.

O autor deturpa, não há outra palavra possível, um conhecimento milenar e acessível, para subsidiar seu discurso. Não é “a opinião dele”, ou interpretação. Trata-se de uma falsificação, simplesmente.

Contrariando o que o livro doutrina, reforço: atenção ao que se lê, procuremos referências, desconfiemos, não nos calemos frente às falsificações!

Paulo Henrique Rodrigues Pinheiro – https://bolha.us/@paulohrpinheiro

A voz e a cadência de Roberto Piva se apoderam de meus pensamentos.

Sonolentos e vazios ônibus disputam espaço, nas sonolentas e vazias avenidas de Curitiba, com carros desgovernados por drogados adolescentes da alta sociedade.

Nesta sagrada sexta em que até as prostitutas se resguardam em respeito a sabe-se lá o que, testemunho a revelação que o vento traz. Vulgares copos de plástico manchados por um vagabundo vinho paranaense são as provas de que bêbados sem mãe passaram a noite heresiando.

As ruas estão vazias, meu espírito não.

Mas sou menos que uma carola prostituta, pois em pleno feriado cristão estou indo trabalhar, cumprindo minha sina de moderno escravo assalariado.

Escrito por volta de 2005, quando, numa sexta-feira santa eu estava indo trabalhar muito contrariado apenas pra ser alguém de plantão na sede da empresa. Esses pensamentos me assolaram ali no Largo da Ordem, por volta das 7h00 da madrugada.

Paulo Henrique Rodrigues Pinheiro – https://bolha.us/@paulohrpinheiro