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from Riverfount

A complexidade ciclomática mede o número de caminhos de execução independentes em uma função ou módulo Python, ajudando a identificar código difícil de testar e manter. Desenvolvida por Thomas J. McCabe em 1976, essa métrica é calculada como o número de pontos de decisão (if, for, while, etc.) mais um, revelando riscos em fluxos ramificados excessivos.

Mas o que é Complexidade Ciclomática?

Complexidade ciclomática (CC) quantifica a densidade de caminhos lógicos em um grafo de controle de fluxo. Em Python, cada estrutura condicional ou de loop adiciona ramificações: um if simples eleva a CC para 2, enquanto and/or em condições compostas multiplica caminhos independentes. A fórmula básica é CC = E - N + 2P, onde E são arestas, N nós e P componentes conectados, mas ferramentas como radon ou flake8 computam isso automaticamente.

E por que diminuir a CC importa para Pythonistas?

Código Python com CC alta (>10) aumenta o risco de bugs ocultos e eleva o custo de testes unitários para cobertura total. Funções longas com if-elif-else encadeados violam o Zen of Python (“Flat is better than nested”), complicando debugging em IDEs como PyCharm. Em microservices ou APIs Flask/FastAPI, CC elevada impacta deploy em Docker, pois refatorações viram gargalos em CI/CD.

Calculando CC em Código Python

Considere este exemplo problemático:

def processar_usuario(usuario, eh_admin=False, eh_pago=False):
    if not usuario:
        return None
    if eh_admin and eh_pago:
        return "acesso_total"
    elif eh_admin:
        return "acesso_admin"
    elif eh_pago:
        return "acesso_basico"
    else:
        if usuario.ativo:
            return "acesso_limitado"
        return "bloqueado"

Aqui, CC ≈ 6 devido a ramificações múltiplas. Use radon cc arquivo.py para medir:

processar_usuario: CC=6 (alto risco)

Interpretação e Limites Recomendados

Faixa de CC Nível de Risco Ação Sugerida
1-5 Baixo Manter como está
6-10 Moderado Refatorar se possível
11-20 Alto Dividir função imediatamente
>20 Crítico Refatoração urgente

Valores acima de 10 sinalizam antipadrões em Python, como god functions em Django views.

Estratégias de Redução em Python

  • Extraia funções puras: Divida em helpers como validar_usuario() e determinar_nivel_acesso().
  • Use polimorfismo: Substitua condicionais por classes com @dataclass ou Enum.
  • Guard clauses: Prefira if not condicao: return para early returns.
  • Strategy Pattern: Dicionários mapeiam condições a funções: handlers = {eh_admin: handler_admin}.
  • Ferramentas: Integre pylint ou mypy no pre-commit hook Git para alertas automáticos.

Exemplo refatorado (CC reduzida para 2):

def processar_usuario(usuario, eh_admin=False, eh_pago=False):
    if not usuario:
        return None
    return determinar_nivel_acesso(usuario.ativo, eh_admin, eh_pago)

def determinar_nivel_acesso(ativo, eh_admin, eh_pago):
    if eh_admin and eh_pago:
        return "acesso_total"
    handlers = {
        (eh_admin, eh_pago): "acesso_basico",
        eh_admin: "acesso_admin"
    }
    return handlers.get((eh_admin, eh_pago), "acesso_limitado" if ativo else "bloqueado")

Integração em Workflows Python

Em projetos com pytest, mire 100% branch coverage em funções CC<10. No VS Code, extensões como "Python Docstring Generator" ajudam na documentação pós-refatoração. Para equipes, thresholds no GitHub Actions bloqueiam merges com CC>15, alinhando com práticas DevOps em Kubernetes.

Monitore CC regularmente para código limpo e escalável em Python. Experimente radon no seu repo hoje e compartilhe comigo em @riverfount@bolha.us sua maior redução de CC!

 
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from in.versos

Ah, os doces sabores da vida.

Suaves, cítricos, florais, intensos, agridoces.

Sorrisos, olhares, abraços e lábios.

Lábios que beijam, sussurram e provocam.

Lábios vermelhos, lábios de Mell, Pablyne, sublimes.

Sabores que não precisam ser provados para se saber que são doçura, delícia e prazer.

 
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from Riverfount

Evitar números mágicos em expressões booleanas é uma recomendação explícita de linters Python modernos (como Pylint e Ruff, via regra PLR2004), pois esses valores dificultam a leitura e a manutenção do código. Entender essa regra e o contexto em que ela surgiu ajuda a justificar a prática ao time e a padronizar o estilo da base de código.

PLR2004: de onde vem essa regra?

A sigla PLR2004 é o identificador da regra magic-value-comparison em ferramentas de lint para Python, como o linter Ruff, que reutiliza a numeração herdada do Pylint. A regra é derivada diretamente da mensagem de refatoração R2004 – magic-value-comparison do Pylint, mantido pelo projeto PyCQA, que incentiva o uso de constantes nomeadas em vez de valores mágicos em comparações.

Na documentação do Ruff, a PLR2004 é descrita como uma verificação que detecta o uso de constantes numéricas “mágicas” em comparações, sugerindo substituí-las por variáveis constantes, justamente para melhorar legibilidade e manutenibilidade. A própria descrição enfatiza que o uso de valores mágicos é desencorajado pelas diretrizes de estilo PEP 8.

O que a PLR2004 considera um “magic value”

A regra PLR2004 inspeciona comparações como ==, !=, <, >, <= e >= em busca de literais numéricos sem nome, tratando-os como magic values quando representam algo além de números triviais. A documentação do Ruff destaca que esses valores tornam o código mais difícil de ler, pois o significado precisa ser inferido apenas pelo contexto, e recomenda o uso de constantes nomeadas.

Por conveniência, a regra costuma ignorar alguns valores muito comuns, como 0, 1 e "", que aparecem em operações idiomáticas, mas ainda assim permite configurar uma allowlist de valores aceitáveis para cenários específicos. Essa flexibilidade existe porque, em certos domínios, números como 90, 180 ou 360 deixam de ser “mágicos” e passam a ser parte da linguagem natural do problema (por exemplo, ângulos em graus).

Por que números mágicos atrapalham em expressões booleanas

Em expressões booleanas, o problema dos números mágicos fica mais evidente, porque a condição deveria comunicar a regra de negócio de forma clara. Ao escrever algo como if status == 2:, o leitor não sabe, de imediato, o que 2 representa: ativo, suspenso, cancelado?

A documentação do Pylint para magic-value-comparison / R2004 afirma que usar constantes nomeadas em vez de valores mágicos melhora a legibilidade e a manutenibilidade do código. Quando o valor de negócio muda (por exemplo, o status “ativo” deixa de ser 2 e passa a ser 3), o uso de literais espalhados exige uma busca manual sujeita a erro, enquanto uma constante única permite a mudança em um único ponto.

Exemplos em Python aplicando a PLR2004

Exemplo ruim: números mágicos em comparações

def can_access_admin_area(user_role: int) -> bool:
    # 1 = admin, 2 = editor, 3 = viewer
    return user_role == 1

Nesse caso, a PLR2004 sinalizaria o 1 como um magic value na comparação, sugerindo a extração para uma constante com nome significativo.

Exemplo melhor: constante nomeada

ADMIN_ROLE_ID = 1

def can_access_admin_area(user_role: int) -> bool:
    return user_role == ADMIN_ROLE_ID

Aqui, a expressão booleana se explica sozinha e a ferramenta de lint não acusa a regra PLR2004, pois o valor numérico está encapsulado em uma constante nomeada.[2][1]

Exemplo ruim: múltiplos valores mágicos

def is_valid_retry(status_code: int, retries: int) -> bool:
    # 200: OK; 500: erro interno; 3: máximo de tentativas
    return status_code != 200 and status_code != 500 and retries < 3

Esse padrão é exatamente o tipo de uso que a regra magic-value-comparison (PLR2004) se propõe a detectar.

Exemplo melhor: constantes de domínio

HTTP_OK = 200
HTTP_INTERNAL_ERROR = 500
MAX_RETRIES = 3

def is_valid_retry(status_code: int, retries: int) -> bool:
    return status_code not in (HTTP_OK, HTTP_INTERNAL_ERROR) and retries < MAX_RETRIES

Agora cada número tem um nome de domínio, a intenção da condição é clara e a manutenção futura fica concentrada nas constantes.

Exemplo com Enum para estados

from enum import Enum, auto

class UserStatus(Enum):
    INACTIVE = auto()
    ACTIVE = auto()
    SUSPENDED = auto()

def is_active(status: UserStatus) -> bool:
    return status is UserStatus.ACTIVE

Ao usar Enum, o código evita completamente comparações numéricas, eliminando o gatilho da PLR2004 e expressando a lógica booleana em termos de estados de negócio.

Conclusão: aproveite PLR2004 a seu favor

A regra PLR2004 (magic-value-comparison), definida originalmente no Pylint e incorporada pelo linter Ruff, existe justamente para forçar a substituição de números mágicos por constantes e construções semânticas em comparações. Em vez de encarar o aviso como ruído, é possível usá-lo como guia de refatoração para deixar suas expressões booleanas mais claras, consistentes e fáceis de evoluir.

 
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from in.versos

Vi, refletida na superfície do espelho, a face oculta da Morte.

Anjo, em vestes negras, cuja efígie me enfeitiça e cujo toque gélido anseio — em encanto e deleite —

no entrecruzar das mãos, cedidas a uma dança.

Uma única valsa, antes do fim.

 
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from Outras Coisas Mais

Oi! Estou procurando por uma amiga. Pode me ajudar?

Acho que talvez você a conheça:

Ela tem um sorriso gracioso; uma presença radiante; uma personalidade marcante, Ela gosta de dançar na chuva, o que é incrível visto o jeitinho de Paty — mas é só de primeira vista; usa uns vestidos lindos e tem um caminhar tão envolvente; A observar na contra luz do por do sol é de uma magia indescritível e os olhos, ah, aqueles olhos — são como uma doce e terna melodia. E por falar em melodia... O modo dela falar é delicioso, você pode ficar horas a ouvindo; ela tem uma forma curiosa de conversar sobre a vida e uma mania de terminar as frases com “Sabe?” que é tão maravilhoso de ouvir; e é o máximo como ela pronuncia “fácil”; O gosto para filmes é meio estranho; É maconheira; Gosta de ler para viajar a outros mundos— não é o máximo alguém que gosta de ler? E por incrível que pareça, ela gosta dos meus poemas. Ou parecia gostar. Ela tem alergia a pimenta; faz umas panquecas que parecem ser muito, muito saborosas; gosta de jabuticabas e coisas com canela — já falei das panquecas? E não gosta de lavar a louça, principalmente panelas; Ela é Bartender; gosta de jogar bilhar; virar shots e apreciar drinks — lembro de um tal Fritzgerald. Costuma ser um tanto distante, excessivamente focada no trabalho e ultimamente, tem parecido menos afetuosa — ou talvez seja um equívoco meu. Mas eu entendo esse jeito dela ser, e amo esse jeito dela ser.

Ah! Ela é inteligentíssima e escreve textos maravilhosos — que estou com saudade de ler.

Viu ela por aí? Se a vir, diga que mandei um abraço e que estou com saudade. E que quando ela puder e quiser, que me dê notícias de como está se sentindo.

Carta enviada para amiga
 
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from Paulo Henrique Rodrigues Pinheiro

Clara Charf

Morreu ontem, 3 de novembro de 2025, aos 100 anos, a camarada Clara Charf, militante revolucionária forjada nas lutas comunistas desde a juventude. Nascida em 17 de julho de 1925, Clara ingressou no Partido Comunista Brasileiro (PCB) ainda adolescente, tornando-se uma das vozes ativas na resistência à ditadura do Estado Novo.

Casada com Carlos Marighella, com quem compartilhou não apenas a vida afetiva, mas também o profundo compromisso com a transformação social, Clara teve uma longa carreira na estrutura partidária do velho PCB. Utilizando suas prerrogativas profissionais como aeromoça da Panair do Brasil, desempenhou papel crucial na logística da militância, transportando documentos clandestinos do Partidão por diversas cidades, cruzando fronteiras e arriscando a própria liberdade em nome da organização revolucionária.

Além dessa atuação discreta porém fundamental, Clara participou ativamente de inúmeras outras tarefas revolucionárias – desde a organização de bases operárias até a coordenação de ações de solidariedade internacionalista. Após o golpe de 1964, aprofundou seu engajamento na resistência à ditadura militar, tornando-se uma das fundadoras da Ação Libertadora Nacional (ALN), organização da qual Marighella seria principal dirigente.

Sua trajetória não se limitou à militância armada. Com a redemocratização, Clara Charf seguiu na linha de frente das lutas sociais, dedicando-se especialmente à causa feminista e tornando-se uma das principais referências do movimento de mulheres no Brasil. Foi fundadora da União de Mulheres de São Paulo e esteve envolvida nas campanhas pela Anistia ampla, geral e irrestrita e na construção do Partido dos Trabalhadores.

 
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from Fure a bolha

#tecnologia #tecnootimismo #IA

Introdução

Há uma ideia muito errada de que inteligência artificial seria juiz confiável e imparcial. Tem relato na rede social Lemmy de um infeliz cuja namorada vive jogando as brigas no casal no ChatGPT para dizer que o cara estava errado mesmo, o ChatGPT confirmou.

Na minha área (TI), antigamente era bem mais comum as pessoas lerem manuais info; man pages; e livros sobre algoritmos, matemática, engenharia de software. Aí quando se popularizaram sítios como Stack Overflow, alguns desenvolvedores passaram a copiar trechos prontos desses sítios para a base de código sem entender plenamente o funcionamento. Hoje piorou – o povo chupa da IA códigos grandes sem entender nada de como funciona. Menos conhecimento ainda do código que a pessoa terceirizou, e maior chance de erros (IA usando fontes ruins) e alucinações (IA fantasiando).

A seguinte entrevista de Jeremy Howard traz excelente perspectiva sobre o uso responsável de IA: https://youtu.be/LrFbxIvsipw

Entrevista com Jeremy Howard

Jeremy é CEO da Fast.ai e da Answer.ai. Desenvolveu o modelo ULMFiT, um marco no uso de aprendizado profundo para linguagem natural. Hoje temos Qwen e Deep Seek.

No vídeo ele contesta a empolgação com agentes de IA (AI agents). Contesta a ideia de que a IA fará tudo para as pessoas. Argumenta que quem mergulha em agentes pára de aprender. Não pratica suas habilidades. Terceiriza tudo. Jeremy pretende estar no grupo de pessoas que usa IA com muito cuidado para continuar melhorando suas habilidades. Ele usa IA para se aprimorar, ganhar competência, aprender mais, praticar melhor.

Pessoas estão esquecendo como trabalhar. Estão esquecendo que conseguem trabalhar. Se a IA não resolve, ficam perdidas. Isso faz mal à psique. Quem deveria programar software, usa IA para criar milhares de linhas de código que não entende. Isso acumula dívida tecnológica, tornando muito difícil a depuração de defeitos e a integração. Jeremy já viu pessoas se tornarem deprimidas percebendo que perderam a competência e o controle. A abordagem centrada em agentes de IA coloca o computador no controle. Quem faz isso se coloca no caminho de se tornar incompetente e obsoleto.

O uso cego de IA pode aumentar no curto prazo o volume de trabalho, mas reduz a produtividade real a longo prazo. Código fonte gerado por IA não é muito bom. Não é bem integrado. Não cria camadas de abstração que funcionam bem em conjunto. A boa engenharia de software faz a produtividade aumentar ao longo do tempo. Com código gerado por IA ocorre o oposto. Jeremy avalia que empresas que se apoiam cegamente em IA vão olhar para trás e perceber que, no esforço de sempre conseguir resultado rápido em duas semanas, destruíram sua competência organizacional de criar coisas que duram.

Jeremy propõe que a IA observe o trabalho humano, dê dicas e responda perguntas de modo a guiar nosso trabalho, ao invés de executá-lo. Ele avalia ser um desenvolvedor de software muito melhor do que dois anos atrás, pois se dedica a usar IA para se aprimorar. Quer superar a IA.

Jeremy também apoia fortemente o código aberto, inclusive na IA, pelo bem da democracia. O poder deve ser descentralizado e não concentrado nas mãos dos ricos e poderosos. O Estado precisa intervir. Instituições privadas têm um papel de aproveitar os mercados.

No momento a China é o país que está nos salvando da centralização. Hoje todos os melhores modelos de IA de código aberto são chineses. Jeremy passou muito tempo na China, e avalia que lá o sistema investe de verdade em ciência da computação e matemática, e muitas pessoas acreditam na abertura.

Conclusão

É importante a habilidade de usar IA com responsabilidade, para potencializar o trabalhador humano e não substituí-lo. No entanto, falar é mais fácil do que fazer. Assim como sabemos da importância da alimentação balanceada, mas cedemos a guloseimas, fast food e ultraprocessados, também é difícil resistir à tentação de terceirizar o trabalho para IA.

Eu aqui tento conferir e entender as saídas do Qwen. Por privacidade instalei também modelos pequenos localmente em um contêiner Podman no meu laptop. Pretendo comprar uma máquina mais parruda para rodar localmente modelos mais poderosos e reduzir o uso de modelos hospedados no exterior. E quando preciso usar modelos hospedados em outros países, dou forte preferência a modelos de código aberto e hospedados em um país amigo como a China.

 
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from Fure a bolha

#ciencia #jornalismo #historia

Fontes confiáveis

Introdução

Na ciência da computação dizemos em inglês garbage in, garbage out – se a entrada é lixo, a saída é lixo. Isso vale também para argumentação lógica e aprendizado. Conclusões verdadeiras exigem não apenas um método válido mas também fontes confiáveis. Podemos aplicar metaforicamente o ditado “você é o que você come”.

Critério 1: fidelidade a fatos (literatura científica)

Para qualidade de fonte jornalística ou histórica, um critério crucial é fidelidade aos fatos, respeito ao consenso da literatura científica e uso de bons métodos e boas fontes. Isso importa mais que o tamanho e o prestígio do veículo.

Muito me inspira o argumento de Santo Agostinho – um dos maiores doutores da Igreja. Ele, da época do Império Romano, já defendia que os cristãos se informassem bem sobre a ciência secular. Argumentava (parafraseando): quando um infiel ouve um cristão dizer asneiras e barbaridades sobre coisas visíveis, a Igreja perde credibilidade. De fato, quem diz barbaridades até sobre coisas visíveis não tem credibilidade nem para coisas visíveis, nem (muito menos) para coisas invisíveis.

Isso me serve de valiosa analogia para fontes jornalísticas e históricas. Meu ponto forte são as exatas, pois sou formado em engenharia eletrônica e ciência da computação. Penso que as ciências humanas e sociais são mais sutis e mais suscetíveis a controvérsia do que as ciências exatas. Então quem diz asneiras e barbaridades até sobre as exatas, que dirá das humanas? Quando a cegueira ideológica não poupa nem as exatas, aquela fonte não é confiável nem para exatas, e muito menos para humanas e sociais.

Por exemplo, quem nega a ciência climática perde a credibilidade.

Critério 2: autoridade

Normalmente, quem consulta um cardiologista renomado não exige as fontes (artigo científico, livro etc) quando ele diagnostica pressão alta. Da mesmo forma, um especialista em determinado assunto fala com autoridade sobre aquele assunto. Já um anônimo tem necessidade reforçada de mostrar boas fontes para suas principais alegações controversas. Das fontes sugeridas abaixo, o sítio Red Sails é pouco conhecido mas ainda assim é confiável, pois veicula artigos de autores bem formados ou cobertos de citações de boas fontes.

Critério 3: enquadramento

O enquadramento (ou framing) é uma arma poderosa. Vai além da factualidade e direciona a seleção, ênfase e apresentação de aspectos de uma realidade, promovendo uma definição particular do problema, uma interpretação causal, uma avaliação moral ou uma recomendação de conduta.

Não se trata apenas do que é noticiado, mas como. A escolha de palavras, a voz gramatical (ativa ou passiva), a atribuição (ou não) de autoria e a adjetivação criam um “quadro” mental que induz a interpretação do leitor. Um mesmo acontecimento pode ser enquadrado como “ataque brutal” ou “auto defesa”.

A seguir, contrastamos manchetes do jornal estadunidense The New York Times, ilustrando a diferença drástica de enquadramento conforme os interesses geopolíticos dos Estados Unidos.

Enquadramento desfavorável e atributivo

The New York Times: Russia Strikes Children’s Hospital in Deadly Barrage Across Ukraine

Russia Strikes Children’s Hospital in Deadly Barrage Across Ukraine

Para um adversário dos EUA, o jornal emprega técnicas para gerar condenação e imputar brutalidade a um responsável específico:

  • Identificação clara do agressor: “Russia Strikes” (“Rússia ataca”). As primeiras palavras da manchete explicitam o responsável pelo ataque.
  • Voz ativa: O emprego da voz ativa (”Russia Strikes”) ressalta a intenção. Apresenta o adversário dos EUA como um beligerante que escolheu a violência.
  • Linguagem emotiva e conotativa: “Deadly Barrage” (“ataque massivo mortal”). A palavra “barrage” enfatiza um volume massivo e indiscriminado de ataques, enquanto “deadly” enfatiza o custo humano.

Enquadramento favorável e dissociativo

The New York Times: Israel-Hamas War: At Least 25 Reported Killed in Strike on School Building in Southern Gaza

Israel-Hamas War: At Least 25 Reported Killed in Strike on School Building in Southern Gaza

Em contraste gritante, o jornal enquadra o ataque israelense a uma escola palestina empregando técnicas para diluir a responsabilidade e contextualizar o ato de forma favorável:

  • Contextualização que justifica: “Israel-Hamas War” (guerra entre Israel e Hamas). A manchete insere o evento no contexto amplo de uma “guerra”. Isto, por um lado, informa, mas por outro, insinua a normalidade do acontecimento, como se fosse um resultado esperado e inevitável da guerra.
  • Voz passiva e agente oculto: “At Least 25 Reported Killed” (“pelo menos 25 mortos são reportados”). A voz passiva omite o autor do ato. As vítimas (“25”) tornam-se o sujeito gramatical da frase, enquanto o ator das mortes desaparece do texto.
  • Dissociação do agressor: A manchete omite Israel como o autor do ataque. O leitor desatento pode, inclusive, inferir que possa ter sido o Hamas. O jornal descreve o ataque como um evento fortuito.
  • Linguagem técnica e impessoal: “Strike on School Building” (Ataque a Edifício Escolar). Comparado com “Strikes a Children's Hospital in Deadly Barrage”, a linguagem é mais fria e burocrática, minimizando a carga emocional.

Impacto do enquadramento

Os veículos jornalísticos sistematicamente enquadram acontecimentos conforme sua visão de mundo e seus interesses. A cobertura jornalística pode, por meio de escolhas conscientes ou inconscientes, orientar a percepção do público:

  • No primeiro exemplo, o veículo induz o leitor a condenar um agressor claramente identificado por um ato de brutalidade.
  • No outro exemplo, o veículo induz o leitor a registrar um evento trágico, mas sem um agressor claro, num contexto de “guerra” que atenua a responsabilidade.

Reconhecer esses mecanismos é vital para uma leitura crítica da mídia. A honestidade de um veículo vai além da factualidade, mas alcança o enquadramento da realidade:

  • Quem é apresentado como agente de ação e quem é apresentado como sujeito passivo?
  • O que é omitido? O que é enfatizado?
  • Que palavras são escolhidas para influenciar minha percepção?

Sugestões

Abaixo vão algumas sugestões de comunicadores e veículos que respeitam a ciência e, transparentemente, se posicionam à esquerda.

Língua portuguesa

  1. Opera Mundi
  2. Elias Jabbour – Presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos. Professor Associado da Faculdade de Ciências Econômicas, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Econômicas e do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais na UERJ. Em 2023–2024 foi Consultor Sênior da Presidência do Banco do BRICS e, de abril de 2006 a fevereiro de 2007, Assessor Econômico da Presidência da Câmara dos Deputados. Graduado em Geografia (1997), Doutor (2010) e Mestre (2005) em Geografia Humana pela USP. Tem experiência em Geografia e Economia com ênfase em Geografia Humana e Econômica, Economia Política, Economia Política Internacional e Planejamento Econômico. Atua principalmente nos temas: China; Socialismo com Características Chinesas; Nova Economia do Projetamento; Categorias de Transição ao Socialismo; Estratégias e Experiências Nacionais e Comparadas de Desenvolvimento; Categoria Marxista de Formação Econômico-Social; e Pensamento Independente de Ignacio Rangel. Vencedor do Special Book Award of China.
  3. José Kobori, importante financista de esquerda
  4. ICL Notícias
  5. Carta Capital

Língua inglesa

  1. Geopolitical Economy Report
  2. Red Sails
 
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from Quadrinistas Uni-vos

No dia 23 de julho lançamos, em nosso blogo e aqui no perfil do Instagram, em conjunto com a FEPAL e o comitê árabe-brasileiro de solidariedade do Paraná, manifestação dirigida à organização da Bienal de Quadrinhos de Curitiba questionando se a vinda de Rutu Modan seria mesmo a melhor ideia, por tratar-se de figura israelense com posições chanceladas pela por Israel, justamente no momento histórico em que vivemos o primeiro genocídio televisionado da história, na Palestina (Gaza), e frente ao qual não cabe apoio tácito pelo silêncio.

Esta manifestação política motivou uma série de ações e discussões que proporcionaram um processo com olhar mais cuidadoso para a questão por parte da organização do evento. Inicialmente, pouco tempo após a manifestação de 23 de julho, a organização se posicionou em nota nas redes sociais (26 de julho), colocando-se abertamente contra o genocídio do povo palestino. Em seguida, o coletivo Quadrinistas Uni-vos foi convidado a participar de uma mesa de diálogo com a organização da Bienal, a FEPAL e o comitê de solidariedade ao povo palestino, onde houve consenso para que o povo palestino ocupasse papel de protagonismo na Bienal e pudesse falar a todos presentes, seja sobre quadrinhos, seja sobre a situação de horror vivida na Palestina, num contraponto à mídia hegemônica brasileira, sócia do regime sionista na empreitada genocida em Gaza.

Essa postura da organização da Bienal, solícita e gentil, além de coerente, permitirá construir uma bienal em que a utopia de um mundo em que o futuro para todos – e, neste momento, especialmente para o povo palestino – seja possível, com paz e justiça, em lugar de um não-futuro de esquecimento e total aniquilação. Que desta Bienal de Curitiba emitamos força para a retomada da paz e da soberania do povo palestino sobre a sua Terra Santa.

Coletivo Quadrinistas, Uni-vos FEPAL – Federação Árabe Palestina do Brasil Comitê Árabe brasileiro de Solidariedade – Paraná Comitê de Solidariedade à Palestina de Curitiba

 
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from Quadrinistas Uni-vos

No dia 12 de maio, em meio à mais recente ofensiva israelense sobre a Palestina, recebemos com surpresa o anúncio de que a Bienal de Quadrinhos de Curitiba traria Rutu Modan, autora israelense de quadrinhos.

Isso, por si só, já configuraria, no mínimo, uma insensibilidade com o momento. Afinal, são 195 países no mundo, 26 estados brasileiros, e a Bienal precisa convidar justamente uma quadrinista de nacionalidade de um país que está realizando um genocídio contra um povo inteiro? E, mais importante: uma quadrinista que não tem uma posição clara sobre isso?

Nos comentários em seu perfil do Instagram, o evento foi questionado, porém a resposta foi um silêncio retumbante. Nesse momento, em que Israel se aproxima de uma “solução final”, em que ativistas estrangeiros levando ajuda humanitária, incluindo um brasileiro, são sequestrados por Israel em águas internacionais, e que Gaza pode ser considerado o lugar mais faminto do mundo, a Bienal optou por ficar em silêncio. Seus organizadores só se manifestaram em suas redes privadas para chamar os protestos de “gritaria de internet”.

Vale ressaltar que, inicialmente, a organização da Bienal foi questionada somente quanto à posição da autora a respeito do genocídio palestino. Não houve insultos ao evento, não foi exigido que desconvidassem a autora – afinal, há israelenses que são vocalmente antissionistas. No entanto, esse não é o caso de Modan – ao contrário, as posições da artista corroboram ainda mais para o fato de que é uma insensatez trazê-la neste momento.

Que se destaque: se as pessoas precisam pesquisar se você é contra um genocídio, talvez você não esteja se posicionando o suficientemente contra ele. A postura da autora é dúbia, sendo difícil definir seu posicionamento através de suas redes sociais, por exemplo.

Como cidadãos da potência ocupante, é imprescindível que israelenses que são contra a ocupação usem sua voz e se posicionem de forma enfática contra o genocídio e o processo de colonização da palestina – até porque, caso não o façam, correm o risco de serem usados como propaganda de Israel, principalmente no caso de artistas.

Em mais de uma entrevista ela reclama do fato de sempre lhe perguntarem primeiro sobre sua posição política, em vez de sobre sua obra. Sejamos honestos: o único motivo pelo qual o cidadão de uma potência ocupante não sente a necessidade de falar sobre o que está acontecendo é porque não é sobre sua cabeça ou na de sua família que estão caindo bombas todos os dias.

Em entrevista ao site “The Comics Journal”, ela diz ser “contra a guerra”, mas que ainda assim “enxerga a complexidade da situação”. Em entrevista ao site brasileiro “O quadro e o risco”, ela afirma que “Pra mim, é interessante mostrar como enxergo a vida aqui. A melhor parte disso é não resolver as coisas, porém mostrar a complexidade delas.” (grifo nosso). No posfácio da edição brasileira da HQ “Túneis”, ela afirma que “a insistência em determinar quem começou nos faz voltar cinquenta setenta cem, seiscentos, 3 mil anos no tempo”, como se fosse uma guerra religiosa, coisa de “malucos” (termo que ela usa para se referir aos personagens “extremistas” de sua HQ no posfácio da edição original, aliás).

Na verdade, a questão não é “complexa”, não começou há 3 mil anos e não tem nada de “maluco”: trata-se de um processo de colonização, que existe porque Israel é uma potência ocupante e genocida desde 1947, ano da primeira Nakba.

No mesmo texto, Modan afirma sobre as “narrativas (..) usadas como justificativa por cada um dos lados para a aniquilação do outro”. Os palestinos não querem “aniquilar” ninguém. Querem, sim, o fim da ocupação e a chance de retornar às suas terras e viver uma vida digna. O único “lado” que tem um discurso de aniquilação é Israel.

A autora tenta claramente vender a ideia de que os dois lados seriam iguais e de que o estado de apartheid não existiria – e, com uma boa retórica, busca equiparar o Estado invasor e a população do território invadido. A ideia de que seriam “dois lados” que desejariam igualmente o extermínio um do outro ignora o fato de que, de um lado, há um Estado armado até os dentes – com mísseis, um forte aparato militar, apoio militar internacional e uma maioria de soldados treinados-, enquanto do outro há apenas um povo que é sistematicamente agredido, um povo cujo direito a viver na própria terra lhe é negado, mas que resiste.

Ressaltamos aqui que o direito à resistência armada de um povo sob o jugo do colonialismo é reconhecido e regulamentado pela resolução 38/17 da Assembleia Geral da ONU de 1983. Mas, mesmo essa resistência armada não pode ser comparada militarmente com o poderio isrelense. A realidade é que o que estamos vendo hoje tem nome e sobrenome: colonialismo e genocídio.

Vale lembrar, ainda, que o posfácio citado foi escrito em outubro em 2024, UM ANO após os ataques de 07 de outubro de 2023, época em que já haviam sido assassinados mais de 40 mil palestinos e Israel já havia jogado em gaza mais bombas do que os bombardeios da Segunda Guerra Mundial em Dresden, Hamburgo e Londres juntos. Ainda assim, a autora parece ter alergia à palavra “genocídio”, e insiste na narrativa de “guerra” e “dois lados que se odeiam”, como se bastassem ambos deixarem de lado suas “maluquices” e dar as mãos para, então, reinar a paz.

Rutu Modan pode não querer que israel acabe totalmente com a Palestina, mas suas colocações desumanizam o povo palestino e retiram dele o direito à resistência.

Daqui a alguns anos, algumas pessoas vão dizer “eu não sabia o que fazer”. Mas nós sabemos, os palestinos estão nos dizendo o que fazer: demonstrar solidariedade, isolar Israel, fazer parar o genocídio. Trata-se portanto, de outra questão: o que QUEREMOS fazer?

Não há possibilidade de silêncio frente ao genocídio do povo palestino. Por isso, deixamos aqui nosso repúdio a essas posições supostamente neutras da autora e, ainda, à postura do evento, que não faz jus ao tema deste ano, “Futuros possíveis”. Só há futuro para a Palestina com o fim do colonialismo e da matança feitos por Israel.

Seguimos na luta por uma Palestina livre, do rio ao mar.

Coletivo Quadrinistas, Uni-vos FEPAL – Federação Árabe Palestina do Brasil Comitê Árabe brasileiro de Solidariedade – Paraná Comitê de Solidariedade à Palestina de Curitiba

 
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from ZeAndarilho

Sobre Pacifismo, Limites dele e da Social Democracia

O que me fez escrever esse texto, e com um pouco de sorte voltar a escrever regularmente, coisa que eu fazia antes, foram alguns pensamentos que eu tive hoje e que me fizeram refletir um pouco, graças a algumas pessoas do fediverso e algumas coisas que elas escreveram, sobre diversas coisas , e eu decidi começar com alguns pensamentos sobre violência e pacifismo. Pacifismo seria a postura de rejeitar a violência em toda e qualquer situação, com o argumento de que não funciona, que sai do controle facilmente, que atrai mais consequências ruins do que positivas, seja qual for o seu objetivo e seja qual for a estrategia, seu plano pro futuro. isso está certo? depende da sua perspectiva ideológica.

Uma galera mais moderada ideologicamente acha que dá pra conseguir mudar o capitalismo de forma pacifica , sem melindrar pessoas cujo apoio é importante, num grande acordo nacional com o supremo com tudo, de forma a chegar num consenso, a classe alta, o trabalhador, os politicos, a extrema direita, de alguma forma levar o país pra a prosperidade dando um pouco pra um, outro pouco pra outro, muito pra alguns, e assim até um futuro onde a sociedade como um todo seja prospera e pacifica. Se sua ideia é só reformar a sociedade mais ou menos e não uma perspectiva revolucionaria , se você só quer ganhar um pouco de coisa pro seu grupo, mas não muita coisa , porque de forma geral você tá bem satisfeito com o que você tem, até sente pena de quem não é tão bem favorecido quanto você mas não o suficiente pra arriscar o seu pescoço ou, realmente, nada mesmo, então o pacifismo faz todo o sentido. você não quer escalar muito a situação, sua vida é boa, da sua família é boa, você tem um bom emprego, uma casa boa o suficiente , nem é muito de esquerda na verdade, você só gosta de uma ou outra figura de esquerda e gosta de como a simbologia comunista faz você se sentir radical. mas não o suficiente pra se dizer comunista ou querer o socialismo. então pra você defender pacifismo, as instituições e uma democracia liberal em moldes que os estados unidos aprovariam faz sentido, porque o modelo de sociedade que você quer tá quase aí, tá praticamente virando a esquina. basta mais algumas minorias aqui e ali, não muitas também pra não melindrar a classe alta, só o suficiente pra acalmar os integrantes dos grupos ativistas que você finge que gosta pra não ser cancelado mas na verdade abomina porque até eles são radicais demais pra o que você quer pra a sociedade. é o fim da historia afinal, o capitalismo venceu, fukuyama já disse. O problema com isso é que as partes envolvidas não são iguais, não tem o mesmo poder politico, econômico, não tem as mesmas ferramentas ideológicas. e num sistema onde recursos são limitados, e quem diz quais são os limites é o representante de uma classe, “farinha pouca meu pirão primeiro”. o trabalhador sempre vai perder, o capital sempre vai ganhar, os ricos e seus representantes vão garantir que isso não mude. e quem não gostar não pode fazer nada, porque o poder politico tá na mão deles. todo avanço que o povo consegue pode e vai ser tirado se a os capitalistas pressionarem pra isso, principalmente se o representante eleito não ligar muito de ceder as coisas. E aí você faz o que? senta e chora? também, mas as vezes a insatisfação popular se acumula e vira manifestações populares, que tem um poder de convencimento da classe governante porque já derrubaram governos antes. quem tá lá em cima tem medo de cair , então o povo pode aproveitar essas situações, entre outras possíveis, pra arrancar um pouco de dignidade das mãos gordurosas dos poderosos. “Mas zé, e violência, cadê a violência, você não ia falar de violência?” pois é, eu acho que a violência tem que ser um bisturi, tem que ser usada com cuidado e calculadamente. eu parto de um principio pensado por gente mais inteligente que eu que é : se rebelar é justo. toda a violência do oprimido é justificada, porque o opressor agride bem pior toda a população trabalhadora todos os dias. dito isso, não pode ser bagunça. tem que ter uma organização por trás, um planejamento. não pode dar uma arma na mão do cara, apontar pra a frente e falar “vai lá campeão”. as armas tem que estar sob o comando do partido, ou de orgãos do partido, pra agir calculadamente, e visando um objetivo. o partido deve controlar o exercito, a violência, e não o contrário. Pra mim nem toda ação violenta é válida , mas nem toda é inválida. depende da situação. as vezes é a unica opção que resta. mas tem que analisar caso a caso. Acho que uma das consequências da dominação americana por tanto tempo foi a naturalização de certas coisas, certos princípios do liberalismo americano que se alojaram no senso comum popular e são tidos como verdade absoluta. uma delas é que rico é gente. A democracia no modelo liberal não é a unica possível. na verdade nem democracia é, é ditadura da burguesia. democracia pro rico , ditadura pro pobre, direitos pro rico, violência pro pobre, quando devia ser o contrário, todos os direitos pro pobre, nenhum pro rico. quem devia apanhar da policia é o rico. quem devia ser perseguido é o rico, quem devia ter medo, e ter motivos pra ter medo , é o rico. e isso só se consegue com uma revolução, que inevitavelmente envolve violência, mas é principalmente contra o rico, então quem se importa? eles se importam quando a policia mata milhares todos os dias? não. então FODA SE. #PAS

 
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from Segunda Ficha

Um lugar para chamar de nosso

Cosmic radiation

Sejam muito bem vinda, bem vindo e bem vindes ao blog do Segunda Ficha. A ideia, é falar sobre jogos, falar sobre a nossa maravilhosa tag semanal, e claro, sem paywalls e I.A.

Vamos tentar formar uma comunidade gentil, acolhedora e diversa, em games? bora construir isso juntas e juntos?

É isso, pra um primeiro post! hahaha

Nos vemos por aí

 
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from Outras Coisas Mais

Eram aqueles “olhos de jabuticaba”, que nem mesmo todas as constelações da Via Láctea juntas conseguiam competir em brilho e esplendor.

Sentado em uma desconfortável cadeira de madeira rústica, com uma garrafa na mão e o controle remoto do televisor na outra, assistia a algum programa de plateia idiota, daqueles tão comuns nos canais abertos que não acrescentavam nada de útil – salvo exceções – à minha vida cotidiana.

Ouvi o telefone tocar e levantei-me para atendê-lo. Não consigo imaginar uma melhor maneira de descrever a sensação de levantar daquela cadeira após horas sentado e descendo goela abaixo intensos goles de rum. Primeiramente foi de alívio, como quando se passa antisséptico em uma arranhão e se descobre que ele não arde. Em seguida veio o formigamento e o molejo. Não sentia as pernas e mal conseguia movê-las para sair do lugar. Mas o pior foi quando a sala de estar girou ao meu redor de forma muito semelhante a quando se está em um daqueles carrosséis dos antigos parques de diversões itinerantes. Com muita dificuldade e com uma dor de cabeça tão horrível que parecia haver uma rinha de galos dentro do meu crânio, caminhei até o telefone, tirei-o do gancho e arrastei um “alô” tão longo quanto só um bêbado poderia fazê-lo. Mais tarde, encontrava-me à porta da casa de Ana Carla, com meus trêmulos e longos dedos finos oscilando entre tocar ou não a campainha.

Ela sorriu e estendeu os braços para me envolver com seu calor e perfume.

“Você chegou cedo, ainda não me arrumei”, ela disse. Sua voz me envolvia em uma nuvem mística de prazeres e desejos proibidos. Era música aos meus ouvidos e alimento para a alma.

Ana Carla sempre teve o péssimo hábito de se arrumar depois do horário marcado para nos encontrarmos e também em demorar um pouco mais que uma hora para se sentir satisfeita com a imagem que via refletida no espelho. Não havia alternativa a não ser esperar. E eu sabia, a espera valeria a pena.

Perambulei pela sala observando os quadros que emolduravam clássicos pôsteres da década de 50. Terror e ficção-científica eram seus gêneros prediletos, assim como os meus. 'Creature from the Black Lagoon', 'Invasion of the Body Snatchers', 'The Fly', 'The Blob', 'The Thing from Another World', 'Gojira' [...], 'The Alligator People', 'The Disembodied', 'Curse of the Demon', 'My World Dies Screaming' e tantos outros. Na estante, dezenas de livros entre prosas, poemas, novelas, romances e ensaios. Era um verdadeiro paraíso para um amante de literatura e cinema de terror como eu. Os enfeites luminosos de cristais, a poltrona de vime e um pequeno porta-retratos de tamanho de um cartão de crédito, onde se podia ver uma fotografia desbotada. Ana Carla usava um longo vestido florido e um chapéu de palha enquanto cavalgava um cavalinho daqueles de parque nos quais se inserem moedas para poder passar cinco minutos balançando para frente e para trás. Seu característico sorriso denunciava a felicidade que sentia com a pequena travessura. Fazia alguns anos que havia vendido a minha Lomo que usei para registrar esse saudoso momento. Um calafrio percorreu minha espinha ao ver que ela guardava a fotografia. Tive vontade de pular e dar cambalhotas, abrir a janela e descer livre por oito andares até abraçar a calçada de concreto lá embaixo. Esbocei um leve sorriso...

“Estou pronta”, ela disse. Me virei para vê-la.

***

E lá estava ela, linda e sublime, com seus longos e ondulados cabelos negros. Sua pele alva e aquele sorriso encantador digno de um 'da Vinci'. E claro, aqueles “olhos de jabuticaba” que nem mesmo todas as constelações da Via Láctea juntas eram capazes de competir em brilho e esplendor. Ela era uma escultura de Michelangelo, uma prosa de Cervantes, um romance de Assis. Era a garota que tantas vezes me agraciou com seu vislumbre na escola, a quem eu observava e absorvia com os olhos. Aquela garota alegre e agitada que dançava livre e desengonçada pelo pátio durante o recreio. Graciosa e atrevida, inteligente e gentil, agressiva quando necessário. Sempre usando camiseta preta, calça jeans desbotada e um 'Chuck Taylor All-Stars' surrado.

Meu coração acelerou, era como se em minhas veias, ao invés de sangue, corresse eletricidade. Era como se... Como se eu tivesse voltado no tempo naquele exato momento em que a vi pela primeira vez. Uma nuvem de gafanhotos me devorava de dentro para fora e enquanto me rasgavam para sair, eu era colocado em uma gigante máquina de costura industrial para evitar que os insetos escapassem.

“Obrigada, Roberto. Se não fosse por você, eu estaria muito ferrada”, ela disse.

“Vamos?”, perguntei.

Descemos os oito andares sem trocar palavras enquanto os alto-falantes do elevador insistiam em tocar uma música polifônica chiclete, que tenho certeza, levei semanas para esquecer. O motorista já nos esperava à frente do prédio. Entramos no carro e ele deu a partida.

***

Enquanto seguíamos em direção ao nosso destino, as luzes da cidade transpassavam pelo vidro e acariciavam as faces de Ana. Neste momento, eu já a chamava apenas de Ana, sempre com um sorriso de canto e a alma bailante. Ana, música e poesia. Estava chovendo naquela noite e os semáforos, outdoors, painéis de neon, fachadas de lojas, faróis e tantas outras luzes, projetavam esplêndidas esferas de luz coloridas que desenhavam e destacavam cada magnífica e maravilhosa pequena imperfeição do rosto perfeito de Ana. Um paradoxo no qual eu me deleitava em observar.

“Quer ouvir algo?”, ela perguntou. “Motorista? Posso sintonizar o rádio?” Era típico dela, perguntas sem expectativas de resposta, seu modo particular de dizer “vou fazer” ou “estou fazendo”.

Faço promessas malucas Tão curtas quanto um sonho bom Se eu te escondo a verdade, baby É pra te proteger da solidão

Faz parte do meu show Faz parte do meu show, meu amor

E prosseguimos assim, por todo o caminho. Cada um em seu lado do assento de passageiros, as luzes da cidade projetando sombras e exaltando a graciosidade de Ana, e um quase silêncio quebrado apenas pelo motor do carro, os sons da vida noturna em uma capital e as músicas de Cazuza no rádio.

“Foi bom estar com você, filho da puta”, ela disse enquanto repousava a cabeça pro sobre meu ombro. E outra vez mais, minha alma bailou ao som da música que emanava em cada palavra pronunciada por ela.

***

“Acorde! Chegamos.”, eu disse. Ana abriu os olhos lentamente e sorriu.

“Mas já? Acho que devíamos pedir ao motorista para dar uma volta em torno do quarteirão. Quero aproveitar um pouco mais”, disse em tom travesso.

Se eu pudesse, faria exatamente o que ela me pediu. Ainda mais eu, que nunca soube dizer não para ela. Mas aquela era outra situação.

“Vamos! Desça. Está atrasada”.

Ela se levantou, mas não sem esboçar uma expressão de descontentamento e dengo. Olhou para frente e depois para mim. Então, ela sorriu.

“Obrigada. Amo você.”, ela disse.

Eu fiquei ali, observando-a subir os degraus que a levariam à Catedral. Lá dentro, todos a esperavam.

***

Duas semanas depois, ainda com a música do elevador ecoando em minha cabeça, encontrei Ana em uma cafeteria da cidade. Não a havia visto e por isso ela pôde fazer uma de suas brincadeiras preferidas, chegar sorrateiramente por trás de alguém, cobrir-lhe os olhos com as mãos e perguntar “Quem é?”. Como se fosse possível não saber. Sua voz, sua música, sua poesia eram inconfundíveis.

Virei-me e esforcei um sorriso. E lá estava ela, a garota que tantas vezes me agraciou com seu vislumbre na escola, a quem eu observava e absorvia com os olhos. E enquanto ela sorria e gesticulava alegremente ao falar, meus olhos poderiam ter visto no seu anelar esquerdo o brilho de um diamante. Mas eles não viram. Meus olhos só conseguiam ver o sorriso e o olhar de Ana, aqueles lindos “olhos de jabuticaba”.

Inspirado no meu poema original **Jabuticabas**.

 
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from Outras Coisas Mais

Dias desses, conheci uma mulher que se apresentou como Puta. Digo “Puta” porque foi assim que ela pediu para ser chamada, com “P” maiúsculo mesmo. Ela afirmou que, naquele bar, não havia espaço para seu outro eu. O nome dela era Ágata, embora não fosse o verdadeiro. Passamos a noite tomando cerveja e conversando. Escrevi um poema para ela, e ela me mostrou alguns dos seus.

No fim da madrugada, enquanto o sol surgia a leste, tingindo o céu em nuances de lilás e dourado, trocamos números de telefone com o objetivo de nos conhecermos além das máscaras que nós, boêmios, poetas e vagabundos, costumamos usar ao se apresentar à “civilização”. Ao chegar em casa escrevi alguns versos inspirados na beleza cativante da forma e da alma daquela Puta. Quando percebi, dias depois, tinha um conto com uma estética muito parecida com a de “Lucíola”, de José de Alencar. Mas sem a soberba de Alencar e de obras como “A Dama das Camélias”, de Dumas Filho, em que a cortesã, ou melhor, a Puta, é sempre vista como indigna do amor, cuja única redenção possível é a morte.

Entretanto, o texto ia avançando à medida que eu e Ágata mantivemos contato, e a narrativa inevitavelmente se aproximou desse tema que eu queria evitar. Ela adoeceu, muito, e eu, apaixonado, me dispus a ajudar. Foi então que comecei a me perguntar até que ponto as narrativas de José de Alencar e de Dumas seguem o caminho que reflete o pensamento puritano e machista da época, e em que ponto, de fato, tal sina de dor e sofrimento, de rejeição e esquecimento, é comum à vida dessas mulheres.

A Puta que conheci estava com problemas respiratórios devido às madrugadas sem fim ao relento, assim como Lucíola e Marguerite. É triste ver que velhos preconceitos moldam a realidade de tal modo que tornam tais destinos os quase únicos viáveis para essas mulheres. A crença distorcida de que não merecem ser amadas (e me refiro a todo tipo de amor, não apenas ao amor romântico), cuidadas, que elas não são mulheres, “apenas Putas”, como Ágata bem quis enfatizar, faz dessa distorção uma verdade absoluta e universal. É como se, independente de seus esforços um poder sobrenatural as puxasse para essa existência de infortúnios. Mas não há nada de sobrenatural nesse poder. É um poder real, estrutural.

Ao mesmo tempo em que faço tal reflexão, caio na armadilha de que talvez eu pudesse ajudar. O mito patriarcal do “homem redentor”. É incrível como certas coisas se entrelaçam em nós. Apesar do senso crítico e da autocrítica, ainda imagino ela largando essa vida e arrumando outro emprego. Mas imagino isso por uma questão moralista ou por perceber a realidade indignante que essas mulheres vivem?

**Nota:** Já conheci e me relacionei com pessoas que eram acompanhantes e que faziam isso não por uma questão existencial, falta de oportunidades, família desajustada ou qualquer outro motivo complexo. Elas o faziam assim como alguém escolhe ser advogada, médica ou padeira. Eram pessoas felizes, saudáveis biopsicossocialmente, etc. Portanto, faço a ressalva de que o texto acima diz respeito àquelas pessoas (independente de gênero, identidade ou sexualidade) que permanecem nessas circunstâncias por fatores externos à sua vontade.

 
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