Tecno Treco

O Content warnings (Aviso de Conteúdo), também chamado simplesmente de CW, é um recurso extremamente útil encontrado no mastodon e em outras redes sociais. Com o uso do CW, é possível ocultar uma postagem por trás de um aviso por escrito, o que permite, por exemplo, alertar o público sobre um tópico sensível antes que o toot seja visualizado dando assim a escolha de vê-lo ou não. O usuário pode também optar que toots marcados com CW simplesmente nem apareçam na sua linha do tempo. Esse é um recurso de acessibilidade que permite que todos possam usar a rede social sem se atormentar com tópicos que possam ser prejudiciais . Então qual o problema com os Content warnings?

Primeiro existe um uso indiscriminado do CW, ele virou ferramenta para piadas, títulos chamativos, ou resumos. Muitos usam como ferramenta de expressão e não de sinalização. Isso faz com que quem bloqueie CW por padrão perca conteúdo que não realmente queria perder, isso banaliza uma ferramenta de acessibilidade, se o mesmo fosse feito com o Alt Text não seria visto com bons olhos. O segundo motivo é que não há consenso sobre o que deveria ser marcado com CW, muito fica por escolha das instâncias e usuários mas não há concordância entre os grupos.

Alguns tópicos costumam ser de acordo geral: Violência, nudez, suicídio – mas estes são poucos e a maioria é discutível. Há quem diga que posts políticos deveriam ser sinalizados, e quem decide o que é e o que não é político? A subjetividade é grande na maioria dos casos e levando a um extremo qualquer coisa pode ser passível de uso de CW.

Acredito que a maioria dos CW’s poderia ser substituídos por uma boa hashtag no começo da publicação, isso permite um bloqueio muito mais contextual pelos usuários.

Se eu bloquear a aparição de CW’s, todos eles vão desaparecer, sejam spoilers de filmes, nudes, rants ou o que for. Se bloquear uma hashtag específica só aquele único conteúdo sensível para mim vai desaparecer, posso por exemplo bloquear #suicidio e continuar visualizando posts sobre outros problemas e traumas que não me afetam. O problema é que hashtags são subutilizadas, inclusive por mim, então CW ainda é necessário. O que aponto então é que CW’s deveriam substituir seu campo de título por um campo de categorias pré definidas, assim tornaria seu uso mais sinalizativo e menos expressivo e usuários poderiam marcar quais categorias desejam ocultar acabando com o binarismo atual.

A experiência de se utilizar o Mastodon pode ser bastante alterada de acordo com as configurações utilizadas. Descobrir o que melhor se encaixa vai de cada usuário. Dito isso encontrar essas configurações e testá-las pode não ser muito intuitivo para alguns usuários, por isso trouxe aqui alguns pequenos ajustes que qualquer um pode fazer e que trarão uma melhor experiencia para a maioria dos usuários

*Preferências > Perfil > Aparência > Mostrar conta no diretório de perfil  ___ Ao ativar essa opção, o Mastodon poderá recomendar seu perfil para outros usuários, aumentando sua visibilidade e facilitando que você seja encontrado por outros. No entanto, se preferir não ser facilmente encontrado, mantenha essa opção desativada.

*Preferências > Aparência > Animação e Acessibilidade > Reproduzir GIFs automaticamente ___ Isso vai deixar os gifs funcionarem como deveriam ser

*Preferências > Aparência > Formato da Publicação > Cortar imagens no formato 16x9 em publicações não expandidas* ___ Se a opção estiver ativada, as imagens serão cortadas na proporção de 16x9. Isso significa que imagens em formatos quadrados, verticais ou de outros formatos não serão exibidas completamente no seu feed. Desativar essa opção permitirá que a imagem se ajuste ao seu próprio formato e seja visualizada como deveria.

*Preferências > Notificações > Eventos para notificação por email* ___ Evite o acúmulo de notificações do Mastodon em seu e-mail, pois as notificações do próprio aplicativo já são suficientes. Desative essas opções para evitar o recebimento de spam desnecessário.

*Preferências > Notificações > Outras opções para notificações > Bloquear toots diretos de não-seguidos* ___ Ao ativar essa opção, você impede que pessoas desconhecidas enviem mensagens diretas. Isso evita o incômodo de receber mensagens de pessoas desconhecidas e também previne o recebimento de spam de bots.

*Preferências > Outro > Não quero ser indexado por mecanismos de pesquisa* ___ Se deseja manter seu perfil em anonimato e evitar que ele seja encontrado em uma busca no Google, ative essa opção. Isso tornará difícil para sua empresa ou qualquer outra pessoa curiosa localizá-lo.

*Preferências > Outro > Linhas Públicas > Filtro de idiomas* ___ Ao marcar os idiomas que você sabe falar, essa opção ajudará a controlar e organizar o uso da linha global. Apenas toots nesses idiomas serão exibidos para você, evitando que perca tempo lendo toots em idiomas estranhos. Isso contribuirá para uma experiência mais eficiente e direcionada em sua linha do tempo.

O podman é uma ferramenta de código aberto para a criação e gerenciamento de contêineres, com ele é possível executar diversas aplicações isoladamente.

Vejamos abaixo os três conceitos introdutórios do podman

Imagens

Uma imagem é um pacote que contém tudo o que é necessário para executar um software específico, incluindo o código do aplicativo, as bibliotecas, as dependências, os arquivos de configuração e até mesmo o sistema operacional em alguns casos. As imagens podem ser encontradas em repositórios públicos, como o Docker Hub. É a partir de uma imagem que executamos um contêiner, ou seja, um contêiner em execução é uma instancia em execução de uma imagem.

Para baixarmos uma imagem usamos o comando pull + nome da imagem

podman pull ubuntu

Para listar todas as imagens baixadas usamos o comando images

podman images

Para apagar uma imagem baixada basta o comando rmi + nome da imagem

podman rmi ubuntu

Contêineres

Um contêiner é um ambiente de execução de software isolado, nele é empacotado todas as dependências do software e configurações necessárias. Assim o contêiner fornece isolamento entre os processos em execução. A aplicação do contêiner funciona em paralelo ao sistema e aos outros contêineres em execução. Através desse isolamento, um contêiner garante que os processos em execução dentro dele não interfiram uns nos outros, oferecendo maior segurança e estabilidade. Além disso, o contêiner é uma unidade auto contida, o que significa que ele contém todos os componentes necessários para a execução do aplicativo, como bibliotecas, arquivos de configuração e até mesmo o próprio sistema operacional (ou uma parte dele, compartilhando o kernel). Essa abordagem permite que os contêineres sejam facilmente movidos e implantados em diferentes ambientes, uma vez que as dependências estão encapsuladas dentro deles. Os contêineres também são escalonáveis, permitindo que vários contêineres de uma mesma aplicação sejam executados em paralelo para atender à demanda de carga. u

Para criar um contêiner, usamos o comando create, especificando o nome do contêiner com o argumento —name, as configurações e a imagem a ser utilizada.

podman create --name meu-container -it ubuntu

A opção -it é usada para atribuir um terminal interativo ao contêiner.

Para listar os contêineres use o comando ps

podman ps -a

Com podman ps você lista os contêiner em execução, usando o argumento -a ou —all você lista todos os contêineres

Após criar o contêiner, você pode iniciá-lo usando o comando start

podman start meu-container

Se o seu contêiner foi criado com um terminal interativo você pode interagir com ele utilizando o comando exec

podman exec -it meu-container /bin/bash

Para parar o contêiner use o comando stop + nome do contêiner

podman stop meu-container

Para apagar o contêiner use o comando rm + nome do contêiner

podman rm meu-container

Pods

Um pod é um ambiente compartilhado para múltiplos contêineres. Contêineres em um pod podem compartilhar recursos e se comunicarem. Criar um pod é util para facilitar o gerenciamento de aplicações compostas por vários contêineres que precisam trabalhar em conjunto.

você pode criar um pod usando o comando pod create + nome do pod

podman pod create --name meu-pod

Após criar o pod, você pode adicionar contêineres a ele na criação do contêiner usando o argumento —pod

podman container create --pod meu-pod --name meu-container -d ubuntu

-d indica execução em modo daemon

Para apagar um pod use o comando pod rm + nome do pod

podman pod rm meu-pod

Conclusão

Esses comandos cobrem o básico para a criação de contêineres com podman

Bem-vindo

Existe uma rede social que permeia os recônditos mais profundos da internet, talvez algum excêntrico já tenha lhe enviado um convite, ou talvez você mesmo seja esse excêntrico que topou com essa rede. Mas não se preocupe, não há motivo para se alarmar, pois você acaba de se deparar com o Mastodon. Está, caro amigo, é uma rede social comunitária para a troca de textos. Esqueça todo o jargão técnico que os mais ávidos usuários possam proferir – é só isso. Mas o que significa, afinal, uma rede social comunitária? Significa que não há uma entidade corporativa por trás dela, não há magnatas em seus ternos lustrosos e acionistas ávidos por lucrar em cima de você. O Mastodon é administrado por pessoas e grupos do mundo todo, cada um gerenciando suas próprias instâncias. E o que exatamente são essas instâncias? São como pequenos planetas, cada um com seus próprios habitantes e códigos de conduta, mas que, ao mesmo tempo, orbitam em torno do mesmo sol, compartilhando recursos e interconexões. Todos integrantes do mesmo e vasto universo Mastodon.

Uma jóia rara

Pode ser que você esteja aí pensando: “Ah, essa coisa de comunidade é legal e tal, mas se não tiver conteúdo sólido, de que adianta, não é mesmo?” Mas e se eu lhe dissesse que o Mastodon tem muito a oferecer aos seus usuários, tornando-se assim uma plataforma única e especial? Ora, vamos lá. Primeiro e antes de tudo, o Mastodon é um software de código aberto, o que significa que qualquer pessoa pode examinar o código-fonte e contribuir para o desenvolvimento. Isso, por si só, já é uma grande coisa. Mesmo que você não seja um desenvolvedor, você ainda pode colher os benefícios disso. Como? Bem, graças a essa natureza aberta, você vai encontrar uma série de aplicativos para usar com o Mastodon. Isso mesmo, diferente das redes sociais convencionais, onde você está limitado à experiência oferecida pelo aplicativo oficial, no Mastodon você tem dezenas de experiências diferentes para escolher. E se você não gostar da aparência de um aplicativo, é só trocar por outro. Isso é liberdade e flexibilidade como nunca antes vista. Além disso, o fato de ser um software de código aberto garante que o Mastodon não está fazendo nada de errado com seus dados, já que a plataforma é transparente e todas as ações são públicas. Isso é uma garantia de segurança e privacidade que não é encontrada em muitas outras plataformas. E não para por aí. No universo das redes sociais, onde os anúncios são a norma e os usuários são vendidos aos anunciantes, o Mastodon é uma verdadeira exceção. Aqui, você está livre das amarras do capitalismo e do marketing invasivo. Sim, você leu certo: o Mastodon é completamente livre de anúncios! Diferente de outras plataformas, onde os anunciantes são a principal fonte de receita, no Mastodon as instâncias são financiadas por meio de doações voluntárias e não têm fins lucrativos. Isso significa que não há incentivo para que a plataforma venda seus dados ou use suas informações pessoais para fins comerciais. Em vez disso, o objetivo do Mastodon é fornecer uma rede social segura, privada e sem distrações para seus usuários.E se você pensa que acabou está enganado, a rede do elefantinho é diferente de tudo o que você já viu. Aqui, não há algoritmos manipuladores determinando o que você vê em sua linha do tempo. Em vez disso, você é presenteado com postagens em ordem cronológica, sem interferências ou distorções. Não há posts pagos invadindo sua timeline, nem pessoas populares monopolizando os espaços de discussão. Aqui, todo mundo tem uma chance justa de ser ouvido e visto. Não há necessidade de desespero ou competição por uma postagem que será impulsionada por algoritmos. É um ambiente justo e igualitário, onde suas postagens são vistas com base em seu mérito, e não em quem você é ou quanto dinheiro você tem.

Apenas este fato, por si só, já é um tesouro a ser valorizado. E eu nem sequer mencionei que essa rede não é habitada por criaturas maliciosas conhecidas como trolls, ou que ela acolhe uma variedade de comunidades maravilhosas, ou ainda que dispõe de ferramentas excepcionais de acessibilidade. Não, esta rede é mais do que apenas uma plataforma digital – ela é descentralizada, moldada com precisão e projetada para oferecer uma experiência sem paralelo. É evidente que não estamos lidando com uma rede qualquer aqui, meu caro amigo, e eu o convido a dar uma oportunidade a esta maravilha tecnológica. A questão que permanece, entretanto, é como fazê-lo?

Instâncias

Se a sua intenção é adentrar esse vasto universo, é preciso escolher uma instância. Mas não se alarme, pois a convivência é livre entre os integrantes de todas as instâncias. Cada instância é uma entidade única, com suas próprias regras e princípios. Algumas podem ser um lar acolhedor para usuários políticos, outras para mentes científicas ou até mesmo para habilidosos programadores. E quem sabe, talvez exista aquela que se ajuste perfeitamente à sua personalidade e propósito de vida. Escolher a instância certa é como escolher a patota perfeita, a turma que estará sempre próxima de você, repleta de um sentimento de coletividade e de camaradagem que só uma comunidade verdadeira pode trazer.

Se você precisa de algumas dicas de como escolher uma instância segue abaixo uma lista de instâncias brasileiras que podem despertar o seu interesse:

  • A bantu.social é uma comunidade no Mastodon voltada para pessoas não-brancas que desejam ter uma voz e espaço no mundo digital. É um lugar onde o compartilhamento de experiências e a conexão com outras pessoas que compartilham experiências similares é encorajado e valorizado.
  • A bertha.social é um ponto de encontro para a comunidade científica e entusiastas da ciência e jornalismo.
  • A bolha.us é uma comunidade de nerds e entusiastas de tecnologia que buscam discutir assuntos do cotidiano e outros temas diversos. A instância é moderada e busca ser um espaço seguro para todas as pessoas, com debates construtivos e amigáveis.
  • A Colorid.es é uma instância focada na comunidade queer/LGBTQIAPN+. É um ambiente acolhedor e inclusivo, onde as pessoas podem se expressar livremente e ser quem são, sem medo de julgamentos ou discriminações.
  • A fim.social é uma instancia não temática aberta para todos
  • Por fim, a ursal.zone é uma instância que tem como objetivo unir militantes progressistas, feministas e antifascistas da América Latina. É um espaço onde se discute política, ativismo e questões sociais, buscando sempre a justiça e a igualdade.

E para aqueles que desejam descobrir mais instâncias brasileiras, basta acessar o link https://instancias.br-mastodon.online, onde é possível encontrar uma lista das maiores instâncias do Brasil.

Usando o Mastodon

Muito bem, então você escolheu sua instância. Agora, é hora de criar uma conta – um processo semelhante ao que você já deve ter experimentado em outras redes sociais. Mas aqui está um detalhe importante: a política da sua instância pode incluir a verificação manual de novas contas antes de permitir o acesso. Isso pode exigir que você aguarde a liberação da sua conta por um administrador. Pode parecer um inconveniente no início, mas a verificação manual é um procedimento vital para manter a segurança nas instâncias. Ele ajuda a evitar a entrada de trolls e bots indesejados, criando um espaço mais seguro e saudável para todos. Portanto, seja paciente e aguarde a confirmação da sua conta – você estará contribuindo para uma comunidade mais saudável e acolhedora.

Agora, com sua conta verificada e ativada, você adentra o universo do Mastodon. Mas, por onde começar? Bem, como em toda rede social, você pode criar uma biografia, escolher uma foto de perfil que reflita sua personalidade e começar a compartilhar suas ideias. Siga as pessoas que lhe interessam e envolva-se com a comunidade. Contudo, há uma diferença crucial: no Mastodon, você vê o que quer ver. É por isso que existem três linhas do tempo para interação. Parece complexo, mas não se preocupe – é apenas uma questão de escolher o que você está interessado em visualizar. Na Página Inicial, você encontrará tudo o que aqueles que você segue estão fazendo – é uma área exclusiva para isso. Na Linha Local, você descobrirá o que a comunidade da sua instância está compartilhando e criando – é um lugar para você interagir e conhecer pessoas da sua comunidade. Por último, mas não menos importante, temos a Linha Global, onde você poderá encontrar toots, assim são chamadas as postagens, de todas as instâncias do mundo. É um espaço aberto para você descobrir coisas novas e diferentes perspectivas. Portanto, experimente e descubra o que mais lhe agrada.

Bons modos

Ah, mas não pense que é só criar sua conta e começar a postar sem se preocupar com mais nada. O mastodon, como toda boa rede social, tem suas regras, e é importante que você as respeite. Mas, veja bem, não estou falando aqui de coisas óbvias, como evitar discurso de ódio ou preconceito. Isso é o mínimo que se espera de qualquer pessoa minimamente consciente, não é mesmo? Estou falando de coisas um pouco mais sutis, mas igualmente importantes.

Primeiro, vamos falar de acessibilidade, um tema crucial para tornar a experiência de todos mais inclusiva. O mastodon possui uma ferramenta poderosa de descrição de imagens, que você deve usar sempre que postar qualquer imagem. Dedique um tempinho para criar boas descrições, que possam descrever a imagem para pessoas com problemas de visão, mesmo que sejam leves. Acredite, isso fará toda a diferença para muitos usuários. Além disso, há uma ferramenta para marcar conteúdo sensível, que serve para você alertar outros usuários sobre possíveis temas que podem causar desconforto, como suicídios, traumas ou violência. É importante marcar essa opção sempre que abordar esses assuntos, pois assim outros usuários podem desviar facilmente de suas postagens e você não vai inadvertidamente causar mal a ninguém.

Será que vale a pena?

Talvez você se pergunte se todo esse esforço vale a pena, não é mesmo? Migrar para uma nova rede social é trabalhoso, será que vale a pena? Saiba que a resposta a essa indagação reside em seus próprios princípios. Na atualidade, é crucial repensar nossa permanência em plataformas que se beneficiam da propagação do discurso de ódio, que promovem ideologias extremistas de direita, que manipulam a opinião pública a seu bel-prazer, que demitem em massa conforme a própria conveniência e que influenciam diretamente nos resultados eleitorais. Insistir em permanecer nesses ambientes é compactuar com tais práticas nefastas, permitindo que tais comportamentos perdurem e se proliferem ainda mais. Talvez você não alcance a mesma quantidade de likes e compartilhamentos que costumava ter em plataformas anteriores, mas é preciso questionar: isso realmente importa? Em vez de buscar a validação através de métricas vazias, talvez seja mais valioso encontrar um espaço onde você possa se expressar livremente, interagir com comunidades que compartilham dos mesmos valores e ideias, e onde você possa contribuir para uma experiência digital mais positiva e construtiva. É hora de repensar o que realmente valorizamos em nossas interações online e encontrar um lugar onde possamos nos sentir verdadeiramente conectados.

O termo Autoajuda

O termo “autoajuda”, surpreendentemente presente em nossos dicionários, é bastante curioso. Isso se deve ao fato de que o sufixo “auto” denota algo que se refere a si mesmo, enquanto “ajuda” implica em prestar auxílio a alguém que não é capaz de resolver seus próprios problemas. Portanto, tentar se ajudar por meio da autoajuda é, no mínimo, incoerente, já que pressupõe a necessidade de ajuda externa para solucionar um problema que o indivíduo não consegue resolver sozinho. Além disso, ninguém pede ajuda a si próprio, pois se fosse capaz de se ajudar, não precisaria de ajuda. Apesar dessas contradições, o termo ganhou popularidade e a autoajuda é amplamente explorada em livros, vídeos, palestras, aulas e cursos. É curioso perceber que existe até mesmo uma “metaajuda”, ou seja, a ajuda para ajudar a si mesmo.

Ainda assim, queremos nos autoajudar com o que exatamente? O que temos tanto a aprender com nós mesmos? Ah, temos muita coisa, temos autoajuda econômica, autoajuda financeira, autoajuda emocional, auto ajuda psicológica, autoajuda intelectual e mais qualquer palavra que você queira colocar na frente do termo autoajuda. E o que liga todas essas coisas sobre o mesmo guarda chuva? Como que tantas coisas podem ser autoajuda? A verdade é que a autoajuda não é realmente sobre ajuda; pelo contrário, ela nega qualquer tipo de auxílio e responsabiliza o indivíduo por sua condição social e material, fazendo-o acreditar que é o único culpado por sua realidade. Embora a autoajuda seja disfarçada como uma forma de aprimoramento pessoal, na verdade ela promove a individualização do sucesso e a terceirização de responsabilidades externas para nós mesmos. Não é por acaso que esse gênero literário tomou forma como é conhecido hoje no capitalismo do século XIX e se fortaleceu no neoliberalismo pós-depressão. A autoajuda sempre esteve ligada às promessas de ascensão social do capitalismo, ao sonho americano de que somos capazes de vencer na vida, independentemente de onde viemos. No entanto, essa promessa é inalcançável para a grande maioria das pessoas, deixando-lhes apenas uma falsa esperança de que as coisas um dia serão melhores. Talvez você discorde de mim, talvez você seja um dos que acredita que somos responsáveis pelos nossos próprios destinos, que cabe a nós mesmos lutar por um futuro melhor e que nossas oportunidades somos nós que criamos que os que não obtiveram o sucesso não foram determinados o suficiente e que portanto a autoajuda é uma forma fundamental de desenvolvimento pessoal para essas pessoas. É natural pensar assim o discurso meritocrático é tentador, ele nos empodera de nossos triunfos, da o tapinha em nossas costas e diz “parabéns, foi tudo graças a você” e nos sentimos bem com isso no final do dia. Mas a verdade é que temos menos controle sobre nossas vidas do que gostamos de acreditar, nossos esforços pouco importam a luz de nossas limitações, somos tolhidos pela nossa história, pela realidade imposta a nós, como Marx brilhantemente definiu “Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”, ou seja, nosso futuro é herdado sob as condições de nosso passado, é impossível garantir uma vida de prosperidades a partir de condições hostis. Você só é capaz de melhorar quando existe a possibilidade, qual o mérito do sucesso de alguém que literalmente nasceu sobre ele e qual é o desmérito do “fracasso” de quem sempre foi privado de qualquer possibilidade de ascensão social. É infundado o pensamento que as coisas acontecem em razão do mérito quando certas escolhas não estão nas mãos dos indivíduos, seu emprego é tanto mérito seu quando das condições históricas e sociais que permitiram que ele existisse, você não controla essas variáveis, seu acesso a educação, amparo social e o desenvolvimento da demanda que geram possibilidades de emprego não podem ser alterados pelos seus esforços. É preciso entender que as pessoas se encontram na miséria não por preguiça ou falta de uma mentalidade de sucesso, as pessoas são miseráveis porque o mundo assim as fez, nunca tiveram acesso a educação, a serviços sociais, saúde, moradia ou qualquer tipo de rede de amparo, vivem com acesso somente a empregos precários que garantem unicamente meios de subsistência e nada mais, como é possível dizer que essas pessoas podem mudar de vida mudando sua mentalidade, sendo mais esforçadas, inteligentes e seguindo a cartilha de qualquer livro ou guru de autoajuda quando a realidade cerra qualquer tipo de querer?

Nesse sentido a autoajuda é a homeopatia fornecida pelo capitalismo, pequenas doses de esperança para o indivíduo manter-se operante acreditando na melhora enquanto o capitalismo constantemente nós rouba o protagonismo da história, nós desempodera da realidade, nós transformam em mero trabalhadores-consumidores vivendo vidas precárias e sem perspectiva reais de futuro como Mark Fisher descreve com precisão em Realismo Capitalista:

Para funcionar com eficiência como um componente do modo de produção just-in-time é necessário desenvolver uma capacidade de responder a eventos imprevisíveis, é preciso aprender a viver em condições de total instabilidade [...]. Períodos de trabalho alternam-se com dias de desemprego. De repente, você se vê preso em uma série de empregos de curto prazo,impossibilitado de planejar o futuro

É nesse ponto que a autoajuda surge nos condicionando as necessidades de um modo de produção desumanizante, as condições humanas vão se diluindo frente às exigências do capital e aos poucos vamos caminhando a total submissão. A autoajuda é por tanto no fim uma ferramenta de doutrinação neoliberal.

Individualização

Comentei brevemente que a autoajuda é a individualização do sucesso, voltemos a esse tópico da individualização por mais algumas linhas. Frases como “não reclame trabalhe”, “não pense em crise trabalhe”, “Deixe de ser vítima” são muito fáceis de se encontrar em livros de autoajuda, na boca de gurus e em discursos políticos, quase como se a situação social em que vivemos fosse culpa de uma má vontade de trabalhar e não consequência de péssimas políticas públicas. Novamente Mark Fisher descreve com exatidão:

Já há algum tempo, uma das táticas mais bem-sucedidas da classe dominante tem sido a da “responsabilização”. Cada membro individual da classe subordinada é encorajado a sentir que sua pobreza, falta de oportunidades, ou desemprego é culpa sua e somente sua. Os indivíduos culparão a si mesmos antes de culparem as estruturas sociais; estruturas que, em todo caso, foram induzidos a acreditar que de fato não existem (são apenas desculpas, invocadas pelos fracos).

O discurso de autoajuda misturado a política neoliberal fizeram conceitos como desigualdade, desemprego, educação e saúde passarem a ser problemas do indivíduo como se ele sozinho fosse responsável por campos sociais que estão muito acima de sua realidade, ele que lute contra o desemprego, ele que consiga acesso a saúde e educação, ele que lute contra sua desigualdade perante o patrão, a responsabilidade é dele. Nessa mesma linha problemas psicológicos foram individualizadas como decorrentes de desregulações do indivíduo e não como sintoma de um mundo cada vez mais desumano que ignora as demandas sociais, Mark Fisher aponta:

Considerá-los um problema químico e biológico individual é uma vantagem enorme para o capitalismo. Primeiramente, isso reforça a característica do próprio sistema em direcionar seus impulsos a uma individualização exacerbada (se você não está bem é bom por conta das reações químicas de seu cérebro). Em segundo lugar, cria um mercado enormemente lucrativo para multinacionais farmacêuticas desovarem seus produtos

Dessa forma acredito que é possível indicar a autoajuda como sintoma de um capitalismo neoliberal que tenta apontar que o motivo do nossos “fracassos” somos nós próprios e não toda a estrutura política imposta sobre nós. Assim é importante entender que nós como indivíduos não devemos nos afligir como responsáveis por coisas que estão muito acima de nós, assim como não somos responsáveis pela chuva que cai sobre nossas cabeças e o sol que castiga nossas costas, o desemprego, a solidão e a pobreza também não são de nossa culpa e muitas vezes nada podemos fazer para mudá los como indivíduos, para isso cabe a nós como coletivo mudar a ordem vigente a nosso favor.

Soluções

Abandonar a autoajuda pode ser uma tarefa difícil, muitas vezes ela acaba criando um efeito placebo sobre nossas vidas. Qualquer tipo de mudança positiva que encontramos acabamos por culpar a autoajuda mesmo não havendo evidência alguma que ela seja a responsável direta por qualquer tipo de melhora, então agarramos a esse remédio por acreditar que nada mais poderia fazer o mesmo efeito. A verdade é que muito provavelmente o único efeito que a autoajuda está gerando é a percepção da melhora e não a melhora em si. Para melhorarmos de verdade precisamos de ajuda e não de autoajuda, além de mudarmos a nós mesmos devemos mudar aquilo que nos aflige externamente, devemos mudar o mundo.

Vamos começar com as soluções individuais, se você está infeliz com sua vida talvez você precise de ajuda, e com ajuda quero dizer ajuda profissional, ajuda psicológica. A realidade que vivemos nos adoece e muitas vezes precisamos de ajuda para lidar com ela, a psicologia ou a psiquiatria nos darão as armas necessárias para isso. O mundo individualizado nos faz crer que devemos resolver nossos problemas sozinhos mas não há nada de errado em entender suas limitações e pedir ajuda quando necessária. O profissional correto pode mudar sua vida significativamente se você se permitir ser ajudado.

Agora a parte difícil. É impossível se sentir bem consigo mesmo em um mundo insalubre, as condições materiais o fazem infeliz e nenhuma mudança pessoal vai conseguir mudar isso, se quisermos melhorar como indivíduos temos que primeiro melhorar a realidade em que estamos inseridos e isso não é fácil e muito menos pode ser feito sozinho. Só somos capazes de melhorar o mundo ao nosso redor através de organização e trabalho, como se organizar e em o que trabalhar vai depender da realidade de cada um, talvez sua condição de trabalho seja ruim então vale se juntar com seus colegas para reivindicar condições melhores

Está prestes a ser lançado nos cinemas o mais novo filme da Pequena Sereia, seguindo a tendência de uma série de outros filmes recentes que foram refilmagens de obras ainda mais antigas, como Bela e a Fera, Mogli, Pinóquio e tantos outros. Anteriormente, havia a percepção de que contávamos sempre histórias semelhantes devido às suas similaridades, mas atualmente estamos, de fato, contando as mesmas histórias repetidamente. O novo ainda não surgiu e o antigo aparentemente se recusa a desaparecer.

O gênero dos super-heróis é um dos principais exemplos dessa cultura autofágica, presente tanto nos quadrinhos quanto no cinema, onde a tendência à repetição é notória. Quantas vezes o Superman já morreu e ressuscitou? E quantas vezes o tio Ben precisou morrer para ensinar uma lição ao Homem-Aranha? Há quase um século, acompanhamos histórias dos mesmos personagens. Será que algum dia um herói irá se aposentar e passar adiante a capa?

A indústria dos videogames, considerada a nova forma de arte, está começando a mostrar cada vez mais sinais de repetição. Novos jogos estão se tornando versões refeitas de antigos, e franquias como Resident Evil estão lançando mais remakes do que novos títulos. Mesmo gigantes como GTA, Call of Duty e Final Fantasy aderiram à moda dos remakes e remasters.

O cinema, por sua vez, não é exceção a esse padrão – na verdade, está imerso nele há muito tempo. É difícil citar filmes que não sejam adaptações literárias, e até mesmo a Disney, cujo foco agora são as releituras de seus clássicos, tem em sua lista de clássicos diversas adaptações de histórias populares. Quando se trata de conteúdo original, a empresa tem pouco a oferecer. Mesmo fora da Disney, a originalidade está em baixa. Os grandes clássicos do cinema, como O Poderoso Chefão, Harry Potter, O Senhor dos Anéis e O Silêncio dos Inocentes, além de dezenas de outros filmes de sucesso, são em grande parte adaptações de outras obras.

Repetidamente, somos expostos à mesma história em diferentes formatos: reboots, remasters, reimaginações e adaptações. Isso é mais do que uma tendência do cinema, é um sintoma da nossa cultura. É uma autofagia cultural produzida pelas limitações do capitalismo. É óbvio que essa tendência surgiria, produzir novas histórias é caro e arriscado – duas coisas que são contrárias ao espírito do capitalismo. Por que arriscar milhões em uma nova propriedade intelectual de um filme ou jogo, quando é possível aproveitar uma história já conhecida e comprovadamente bem-sucedida?

Enquanto estivermos presos nas mesmas histórias, ficaremos presos nos mesmos clichês, conceitos e no mesmo zeitgeist. Como podemos crescer culturalmente se não saímos desse ciclo vicioso? Para que surjam novas histórias, o novo terá que matar o velho. Pela primeira vez, novas obras terão que surgir apesar das velhas e não a partir delas. Cabe à produção cultural independente gestar o novo, com obras populares que preencham essa lacuna. São os gibis independentes que experimentam com as ideias mais absurdas, é o cinema independente que produz sem precisar da aprovação de uma sala de engravatados e são os podcasts em suas pequenas salas e microfones que transmitem histórias para o trabalhador em trânsito. O novo cabe a nós, os contadores de histórias do século XXI.