Em Solidariedade à Quadrinista Marília Marz
No sábado, 9 de maio deste ano, a folha de São Paulo publicou uma charge de Marília Marz, que claramente faz referência aos penduricalhos dos juízes, recentemente limitados pelo STF. Esses penduricalhos são uma série de verbas extras — como auxílios, gratificações e verbas indenizatórias — pagas a juízes e promotores. Essas parcelas não são consideradas salário, ficando fora do teto constitucional e elevando a remuneração final acima do limite, gerando supersalários.
Porém, no dia 6 de maio, nos deparamos com imensa tristeza com a notícia de que a juíza Mariana Francisco Ferreira havia falecido devido a complicações de um procedimento para fertilização in vitro. Por conta da proximidade da publicação da charge com esse fato, muitos interpretaram a charge como uma zombaria à morte da magistrada, gerando uma série de ataques à autora, Marília Marz.
O editorial da Folha de São Paulo pode e deve ser criticado pela falta de timing, era deles a responsabilidade de antever que a charge poderia ser mal interpretada devido ao novo contexto. Porém, nada justifica os ataques sendo feitos à autora da charge. Estão acusando Marília de zombar deliberadamente da morte da juíza, quando a charge tem claramente relação com os penduricalhos dos juízes – a charge fala que a pessoa morreu JUNTO com os penduricalhos, isto é, uma pessoa tão acostumada ao luxo, morreu ao perdê-los (não é exagero, já que teve juíza comparando o limite aos penduricalhos a um regime de escravidão*).
Ao parar um segundo para entender quem é Marília e sua obra, é possível perceber facilmente que o seu trabalho é consistentemente alinhado ao feminismo, ao antirracismo e à luta pelos direitos humanos em geral, tornando no mínimo estranha a ideia de que ela poderia deliberadamente tripudiar da morte de uma mulher que queria ser mãe. No entanto, veículos jornalísticos, justamente aqueles que deveriam, antes de mais nada, VERIFICAR FATOS antes de publicar uma notícia, estão repercutindo a acusação contra Marília, mesmo após seu esclarecimento no Painel do Leitor, em que explica que não sabia da morte da juíza ao fazer a charge.
Vale dizer, ainda, que Marília fez a charge dias antes, uma vez que há determinados prazos para entregar esse tipo de trabalho, e não são apenas dois ou três dias de antecedência.
Nos solidarizamos com Marília nesse momento, e exigimos uma retratação por parte dos meios de comunicação que estão fazendo sua caveira!
*A desembargadora Eva do Amaral Coelho, do Tribunal de Justiça do Pará (TJ-PA), comparou a limitação dos penduricalhos a um “regime de escravidão”